domingo, 14 de setembro de 2008

Assim, um tanto sorrateiro

O insustentável ainda assim, meio capenga, conseguiu se sustentar ainda durante muitas décadas. Até que chegou a tempestade de areia e ilusões e levou para o fim do mundo [ou para o começo] tudo quanto é contradição e melancolia. Desfez-se o misticismo incrustado na pupila do olho marejado de cataratas e riachos esplêndidos. No outro lugar, onde tudo parecia acordar para o canto dos pequenos pássaros, uma voz foi calada brutalmente.

Foi reduzindo, reduzindo. Seu tamanho já não era mais o mesmo de antes. Sua boca já não se abria como antigamente. Seus dentes e mandíbulas pareciam grudados em um rosto que não era seu. Nada denotava tristeza, muito menos indiferença. Não havia expressões, antes tão intensas e estampadas para quem quisesse descobri-las. O cosmo parecia conspirar para o desabrochar dos terrores mais planejados e necessários. Não era tudo verdade, apenas a diferença tornou-se tão latente que dúvida nenhuma pairou sobre a arquitetura da indefinição.

Um espirro. Atchim! Desengonçado, atravessou a rua olhando o infinito e a bela lua cheia que se estendia pelos céus embriagados pelo frescor de sua insaciável luz. A impressão não se confirmou, assim como a profecia não revelada aos que se diziam mais instruídos e superiores. Mas no íntimo sabiam que a superioridade não ultrapassava sequer o ossinho do calcanhar esquerdo. A fraqueza também estava altamente inflamável e ele já não podia se esquivar dela.

Um cigarro ao chão, jogado como se fosse uma minhoca em fase de crescimento acelerado, ulcerando aquilo que um dia se chamou de pulmão saudável. Ainda esbanjava vida, porém a escuridão foi tomando conta de forma avassaladora. Mas não se importou, ainda podia respirar, com dificuldades, é verdade, mas ainda podia. Sua potência ainda não havia zerado e era tudo o que importava naqueles instantes efêmeros de sossego e reflexão. Serenidade às vezes faz bem para centralizar o eixo e desmembrar as energias infamantes de olhares apagados pelo seu próprio ego exacerbado e imundo.

Do véu de noiva, só restou um farrapo para ser colocado na entrada da casa abandonada. Há mais de dez anos, mas ainda continuava lá, com suas paredes intactas e marcas de convivências para sempre registradas em cada cantinho daquelas estruturas guerreadas.

Tudo isso foi a representação daquilo que não pensei, não sei, não fui, não falei, não calei, não dei, não demonstrei, não desliguei, não iluminei, não reparei, não estive, não neguei.

sábado, 13 de setembro de 2008

Nação-essência

Flu. Flu. Flu. Nota musical enervada e em carne viva, mas tão iluminada quanto o prédio velho e cheio de estamiras ensaboadas de calmaria. O mar.

Indícios foram revelados no tatame onde caem os corpos e se levantam as inquietações veladas e cremadas no íntimo da profundeza dos oceanos. Nem todos sabem que estão lá, mas os que tomaram consciência sente doer tudo por dentro.

Pensar dói como uma chaga impiedosa. Viver provoca reações contidas na trajetória veloz da cadência estelar.

A destrambelhada da vida flui como o sangue nas veias recheadas de monumentais desconcertos. A posterioridade reprimida e cansada dos pesares fundiu-se ao ematoma produzido pelos escorregões inevitáveis.

A polícia não entrou, mas roubou o pão dormido jogado ao chão de espectros famintos e chamuscados pela beleza da vida.

Salve as mais incompreendidas vontades, pois são por elas que essa montanha-russa escamoteada de vida se apega e não desprende [já]mais.

O que os olhos não vêem, os ouvidos não ouvem.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

A EXPULSÃO!

Clima nervoso. Um pregador de espesso bigode negro, terno azul marinho e duas gravatas sobrepostas, e também sua característica pasta preta, passou a proclamar seus impropérios naquele trem improvisado de púlpito de sua igreja. Ele falou mal de atrizes, atores e prostitutas, dando a entender que todos que seguissem esse caminho estavam condenados ao fogo do inferno.

Disse também que a salvação só existia na pequena igreja [e grande negócio] de onde tinha vindo especialmente para converter os corações perdidos e contaminados pelas ruindades do mundo.

Na estação seguinte o trem estacionou na plataforma, e ele foi convidado a se retirar por dois passageiros, indignados com sua ação descabida de incomodar as pessoas dentro de um local de onde não dá para fugir. Foi dessa forma que ele parou de incomodar os passageiros com suas ladainhas infames e imbecis. Mesmo assim continuou a esbravejar a sua doutrina de botequim, enquanto saía e se afastava.

Dessa vez, fez-se justiça. Toda a cena tinha um quê de comicidade. Sua liberdade foi podada, e daí? A minha também foi, quando achou que eu estava disponível a ouvir suas falácias.

Bendito seja, estou salvo e para sempre liberto de todo o mal! Cada vez mais acredito que eu sou a minha religião e a religião sou eu apenas e a natureza também, na sua plenitude esplendorosa. Ela também me pertence, faz parte de mim, sou eu indiscutivelmente. Seu furor é meu e a minha força vem dela.

Experiências revoltantes fazem com que se busque com mais freqüência os direitos de cada um. O dele era de permanecer calado e não incomodar. O meu era de continuar lendo o meu livro em paz. Na próxima oportunidade, eu mesmo vou esbravejar: "Vá para o inferno com toda a sua imundície disfarçada de bondade e boas intenções!"

Ponto final para este arroubo de racionalidade embutida no ego despojado de quietudes.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Enlatando

Espremido. Resmungado. Estourado. Lamentado. Fugido. Entalado. Enlatado. Desrespeitado. Julgado. Condenado. Piorado. Esquematizado. Fungado. Folgado. Apagado.

Sisudo.

Pesado. Desumano. Incompreensível. Subjugado. Desorientado. Quase irrespirável. Apertado. Sonhado. Fechado. Perdido. Triste. Cantoria. Alegria. Impaciência. Empurrado. Gritado. Não ouvido. Segregado. Gado. Boi. Sardinhas. Descontente. Acomodadas. Velocidade.

Desregulado. Encurvado. Malemolência. Dolorido. Chorado. Buscado. Imóvel. Pescoço. Coluna. Ventilador. Ar. Portas. Preso. Solto. Apoiado. Levantado. Caído. Chão. Teto. Janela. Lá fora. Trilho. Odores. Cachaça. Cebola. Virado. Desvirado.

Retomado. Subida. Descida. Caminhada. Insensatez.

Espera. Deboche.

Estresse.

Calamidade. Pública. Privada. Suja. Amanhã. Tudo de novo. Sorte. É preciso.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

A cigarra cantou

Ao esgoelar todo o seu canto harmonioso, a cigarra mostrava que vivia em um ralo arvoredo, dos poucos que ainda restam por aquela cidade gradeada por muros e murada por grades. Anunciava dessa forma seu protesto e sua ambição de conseguir ser ouvida, percebida, para não permanecer sempre relegada a segundo plano.

Mas parou, perscrutou os mais íntimos detalhes dos andantes que por ali passavam e se surpreendeu: era uma tropa de formigas gigantes, que tinham tomado as feições dos bichos humanos. Por demais espantada, escondeu seus olhinhos em flores desabrochadas e murchas pelo frio terrível que fazia por aquelas bandas.

Viu um pequeno menino-formiga e teve ainda mais medo, pois ele a olhava com um ar de interrogação e dúvida, não sabendo se aquilo tudo era somente produto de sua imaginação. Mesmo que tenha continuado a andar e percorrer as duras pedrinhas que lhe machucavam os pés, tinha o nariz escorrendo, pois estava sozinho e não sabia para onde tinha ido seus pais. Estava perdido, desregulado, destronado.

Em seguida, retomou o canto eufórico e sem fastio. Aquilo tudo realmente não tinha passado de um pesadelo e um sonho maravilhoso de uma pequena cigarrinha que não gostava de cigarros, mas adorava charuto. Eu hein, que coisa mais esdrúxula. Imagine só, a Dona Cigarra sem Cigarro e com um Charutão Cubano na boca! Este mundo só deve estar de pernas para o ar mesmo.

O que tinha sido posto naquele móvel já não está mais, a cigarrinha se enfurnou na madeira, no caule, e ninguém nunca mais soube do seu paradeiro. Coitadinha. Mas a pena havia sumido e ela provavelmente a tinha levado para continuar os seus escritos em algum outro patamar da calamidade que assola os brejos mais imundos de todos os tempos. Atolou no lamaçal e não tinha filho da Terra que o tirasse dali. Ficou. Olhou. Esmoreceu. Cansou. Distraiu. Pereceu.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Universo perdido no anel

De repente achei tudo muito hilário e meu corpo estremeceu de êxtase com aquela mão e um de seus dedos preenchido com aquela aliança que simboliza tanto. Até pra mim representa muito, ou quase nada, como queira. Sempre observei com muita curiosidade a necessidade das pessoas usarem um aro prateado ou dourado no dedo pra representar todo um ideal mal refletido nas hipocrisias do dia-a-dia.

Um direito reservado apenas aos tolos. E não peço desculpas, não preciso, mesmo àqueles amados por mim. Não, não estou amargo hoje. Só queria desabar [na minha cama] um pouco. Mas não quero encher vossos ouvidos [sim, porque minhas palavras gritam escandalosamente] de mais e mais blá-blá-blás. Seu anel vai continuar aí mesmo. Mas ninguém vai impedir que eu continue achando toda a situação muito engraçada e patética.

Mas o corvo sobrevoou o abrigo lotado de ratos de todos os tamanhos imagináveis. Num vôo rasante descobriu que podia ficar por ali sem ser incomodado por ninguém. Era por demais solitário e anti-social, mas no fundo no fundo desejava de forma doentia travar relações com os bichos de outras espécies, mas que podiam ter as mesmas idéias que ele, ou não. Mas não revelava seu segredo nem pra si mesmo.

O corredor escuro se apresentou e foi crescendo a cada passo dado. Não havia portas ao longo dele, não viu, mas sentiu, tateou, caiu. Janelas muito menos. Escapatória nenhuma. Estava cercado e cuspiu no chão maldizendo a sua sorte, de estar num lugar com ar tão irrespirável.

Num piscar de pálpebras, percebeu que a vida já não o habitava e sua nova casa não tinha móveis nem emoções, era só ele e nada mais. Na verdade, agora não tinha mais casa. Era um andarilho no pó das estrelas no universo perdido de alguma galáxia.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Transe-e-unte

A gargalhada estrondou lindamente e todos tiveram vontade de rir igualzinho, com o mesmo poder e força de um inocente anjo do sexo feminino. Ou masculino? Ou travesti? O curioso é que ela se desencadeou de tal forma que foi impossível conter a alegria geral que se espalhou pela cidade iluminada pelo céu nublado e faiscante de chuviscos.

Espreguiçou e soltou um grunido parecido com o de um urso que hibernou durante dias a fio sem notar que o mundo corria e a neve ainda caía lá fora. O espectro se aproximou e sentou-se ao seu lado sussurrando-lhe ao ouvido: ‘vá e não volte, volte sem ir, o direito de vir e ir já não lhe pertence’. Seu cachorro latiu e o despertou de vez para o sonho daquela manhã florida e primaveril.

Vilões estavam espalhados por todos os muquifos por onde passava. Os botecos dos arredores estavam apinhados de gente, mas as cervejas esquentavam em todas as mesas, pois todos pareciam adormecidos, e esqueciam de que estavam num espaço onde nada pára e tudo é alucinadamente proporcional à ambição ambulante que esmaga qualquer possibilidade de redenção.

Os urubus sobrevoavam o alto dos prédios enfaixados e doentes. Eles queriam comê-los, dilacerá-los, mas sua carne não foi muito apreciada e fugiram a toda velocidade para outro matadouro de sonhos. Quem sabe em algum beco do lugar perdido na estrada íngreme e cheia de pedregulhos que quase impediam a passagem dos transeuntes? Transe e unte bem. E depois não diga que eu não avisei, pois quem avisa não tem o que fazer. Ha-ha.

Ao toque do sino, o menino pequenino correu para debaixo da saia de sua mãe e se esquivou do vento gelado que afligia os mais sedentos corações cheios de dúvidas e fraquezas. A poesia não foi suficiente para aplacar a fome de parar e ficar a observar as palmeiras avistadas ao fundo do poço onde iam buscar água todo dia. Os excrementos não tinham destino, eram levados ao bel-prazer do destino inibidor de meias-palavras, meios-tons, meias-conversas. Era tudo por inteiro e havia muitos absurdos mutilados.