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terça-feira, 14 de abril de 2009

Impulsividade

Quando ferve tudo, mando o chefe às favas
Quando não tenho nada, me descubro no meio de tudo
Quando me sinto em mim, me transporto para lá
Quando abro os olhos, os ouvidos se distraem
Quando sinto um frenesi, os sonhos se elevam
Quando passa a raiva, a respiração serena
Quando vejo TV, esqueço da vida
Quando vivo, esqueço de morrer
Quando apareço, me escondo em mim mesmo
Quando te quero, te quero por inteiro
Quando me entrego, me perco deliciosamente
Quando almejo, fico impregnado de comichões
Quando vejo um velinho ou velhinha, penso no futuro
Quando eles se arrastam, tremem ou não lembram, eu penso
Quando eu penso que logo serei eu [será?], penso ainda mais
Quando pensar demais fica cansativo
Eu durmo.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Peitos

A palavra peito é derivada e privada. E engraçada também. Mas o trovão ribombou ao longe, mas nem tão longe assim. Digo que foi apenas o suficiente para vir uma tempestade de idéias por aqui. Parecia físico e palpável. Por que eu lembrei da morte? Mas eu me distanciei de mim por um momento, que não sei precisar quanto tempo se passou. Se um dia, um mês ou um ano. Ou um instante em que me concentrei na laranja docinha e nem tão amarela. A TV chamou a atenção. Um filme. Um óasis. Um deserto. E uns camelos. A confusão tomou conta do lugar e o vandalismo, que nem sempre é um ato abominável [será mesmo?], não se esquivou de si mesmo, nem ao menos fez questão de se esgueirar por cantos descamados. Os peitos são como dinheiro, ou você tem ou você não tem. Ha-ha. Você viaja de vez em quando, sabia? E esse quando não é tão raro, não. E reforço: viajar, mesmo sem sair do lugar, é um exercício permanente de pontos de vista, mesmo que não exista uma vista favorável, e mesmo que não exista sequer visão. A igualdade foi propalada aos quatro ventos [por que não cinco?] e não foi praticada nem mesmo quando Deus desceu de uma nuvem e manifestou sua vontade: "Ei vocês, humanos, sejam mais justos e repartam o pão igualmente entre todos". Todos gargalharam. Sem brincadeira. A graça, na verdade, não tinha graça nenhuma. Era puro deboche. E Ele disse: "É, esse mundo está perdido mesmo".

domingo, 25 de janeiro de 2009

Andarilho

São apenas e tão somente 455 anos. Pouco para uma cidade tão densa e complexa como a nossa. Com suas curvas, arranha-céus, vielas, periferias, centros, casarões, desigualdades, correria, pobreza, riqueza, contrastes, coloridos. Com o seu cinzento inquietante, ela vai construindo a hitória de muita gente e a sua própria. Vai armazenando formas de ser e permanecer. Mas nunca consegue permanecer em um único lugar. Pois ela é constante. A palavra transformação já perdeu o seu significado e daqui a pouco passará a chamar-se São Paulo. Escuta o que estou dizendo.

Mas são as crianças que me comovem e me inspiram constantemente. Seus sorrisos. Seus gestos singelos. Seus olhares inocentes. Assim como eu. Pretensão me comparar às crianças? Talvez. Mas entre eu e elas existe uma ligação tão forte que é tão natural e ao mesmo tempo estranha. Não é preciso fazer muita coisa. Simplesmente pareço ter mel quando chego perto delas. Outro dia mesmo estava brincando de esconde-esconde com uma delas. Pode uma coisa dessa? Pode. E como pode. Foi tão divertido, mesmo ela não sabendo se esconder direito. Eu sempre a achava com facilidade. Naqueles instantes eu só tinha quatro anos também. Voltei no tempo. No tempo que ficou guardado dentro de mim e talvez seja o meu grande tesouro. Não digo aqui de ficar relembrando e vivendo de passado, mas de guardar aqueles momentos que foram essenciais e inesquecíveis. Somos a soma de tudo isso.

Ah, o garotinho me olhou do trem que acabava de sair da plataforma. Ele ia no sentido contrário ao meu, mas ainda assim estávamos intimamente ligados, sem mesmo ter trocado uma palavra sequer. Apenas olhares tímidos. Ele devia ter, no máximo, uns sete anos. Naquele fugaz relâmpago [mais tarde começaria a chover] fomos bons e grandes amigos. Mesmo que o sorriso não tenha saído desabrido como costuma sair nestas ocasiões, ele entendeu que eu correspondi sua vontade de firmar uma amizade. Fomos amigos. Somos amigos. Levou uma parte de mim. Um pedacinho seu ficou aqui.

E o povo deste lugar, onde está? Em casa. A TV. Assistindo. Quem os assistirá? Até quando serão figurantes de seus próprios destinos [mesmo que eles existam só dentro de nossas cabeças]? Até quando o tempo será gasto na preocupação de não se molhar enquanto chove torrencialmente? É preciso tomar banho de chuva de vez em quando. É tão bom. E a vida é tão vulnerável. Amanhã já não sei se sou ou serei. Então banhe-se com o dilúvio puro e caiba em si mesmo de tanta felicidade.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Falta

O mês começa agora por aqui. A bodeação dos últimos dias talvez tenha sido acúmulo de devaneios não passados para o papel, não explicitados, não vomitados. A sensação de estranhamento de mim mesmo vai passando aos poucos. A adaptação vai acontecendo gradualmente. O elevador de estados de espírito ainda continua a descer e subir. Agora ele está no térreo. Estabilizado? Imagina. Daqui a pouco ele dá um forte impulso e sobe ao vigésimo andar. Talvez até mais.

A respiração está até mais tranqüila agora. Interessante isso. Muito interessante. Mas eu não quero esta abolição do trema; ele é tão charmoso. Essa inconseqüencia ainda vai nos trazer maus bocados. Escreva o que estou dizendo. E com trema, por favor. O sistema pode cair, e eu também. Mas está clara a diferença entre mim e ele, não é? Pergunto assim meio despreocupadamente, sem querer uma resposta de pronto. Você tem dois minutos para pensar.

Já reparou que as dores na coluna parecem nada quando a chuva cai lá fora e se está debaixo de um cobertor quentinho, assistindo um filme qualquer na TV à tarde. Se houver uma bela companhia ou uma companhia bela, como preferir, melhor ainda. Mas isso é tão romântico e não é isso o que me representa nos últimos dias. Mas algo consegue me representar completamente em alguns instantes ínfimos que seja?

O ritmo do frenesi que invadiu aquele homem ali passou desapercebido por todos. Ninguém o olhava mais, ele já não existia em carne e osso. Apenas seu nome permaneceu. Ah, a história. Quão leviana e instável ela é.

Ela se parece comigo e, talvez por isso, eu insisto em me jogar no seu rio escaldante de memórias.