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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Um sol encarnado

Ainda bem que inventaram as palavras. Bendito! Se não fossem elas, como eu sobreviveria? Respiraria? Enxergaria o mundo? Será? Como colocaria estes meus anseios e insatisfações para fora, pela janela, pela porta, pelas escadas, pelas ruas? Como vomitaria minhas dores banhadas de sangue? Como seria? Eu seria alguma coisa? Algum humano? Algum bicho pensante? Os gambés entram aqui agora e se mostram revestidos de ordem. Mas que ordem mais desordenada e cruel!

Como bom canceriano, não jogo para fora toda a água contida aqui nos meus culhões (sim, porque eu os tenho!). Ela fica aqui. As palavras também. Muitas, mas muitas vezes mesmo, não saem. Elas ficam aqui borbulhando e me fazendo muito mal. Muitos deveriam ouvir estas palavras... Mas quem sabe aprendo isso qualquer dia desses... Procuro não ter tanta pressa assim. No entanto, me orgulho de não ser capaz de rir com o corpo e chorar com a alma. Pior? Não é a pior. A minha dor é do tamanho que eu quero!

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Magrela sorridente

Assim que a magrela põe suas duas rodas na rua, todos os olhares se voltam e se alegram. Os pequenos garotos quase não se aguentam e a admiram. O seu esplendor é como mel, ou melhor, como o doce comprado na pequena vendinha perto de suas casas. Os olhos brilham. Eu consigo ver daqui. É sério. É sério e tão lúdico. É tão terno que me enterneço junto e sorrio com a alma. Com os olhos me desfaço em compulsão por ver aqueles sorrisos fulgurantes que ainda perdurarão por anos a fio.

Foi bom voltar a andar com minha magrela. Ela me lembra aqueles anos onde o mundo parecia o melhor lugar para se viver. Ele ainda é, mas hoje preciso criar outros mundos para suportar as realidades que se jogam na minha frente tão apressadas quanto o trem atrasado.

Foi bom também voltar ao passado. Aos lugares do passado. Às ruas do passado. Às salas de aula do passado. Ao passado propriamente dito. É como um flash back. É como o passado tão vivo quanto ele não conseguiu ser enquanto acontecia. Ele não foi tão forte naquela época. Mas hoje ele é sim. Tinha tanto medo que o passado ficasse marcado apenas com suas manchas encardidas, mas não, não permiti. E não permitirei enquanto houver um lampejo que seja de fututo. De futuro e de raios. Sejam eles do sol ou da tempestade.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Ontem

O mundo está lá fora e mandou dizer: estou a lhe esperar. Para sempre? Aí é você quem decide.

Ande debaixo do meu guarda-chuva? Só por hoje? Só por agora? Amanhã não existe, é apenas uma invenção do pensamento contemporâneo. Amanhã é ontem, assim como ontem não significa mais nada.

A possessão das energias negativas às vezes prevalece diante do enfezado garotinho que acha que vai conquistar o mundo quando crescer. E não duvide. Talvez ele consiga mesmo.

O apito me acordou. E a imaginação travou. E o carro foi embora. E o trem passou. E a chuva caiu. E o vento soprou. E o amor desabrochou. E o sol reclamou. E a lua aplaudiu.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Caraminholas

Passamos pela vida sem sequer desconfiar sobre o que realmente viemos fazer aqui. A existência é realmente o mais importante? É tão difícil descobrir porque tudo é como é, que simplesmente não buscamos mais respostas. Apenas perguntamos timidamente porque o sol é quente e a chuva molha. Mas não perguntamos para ter respostas, porque temos aquilo que chamamos de fé. E quando a gente decide acreditar para valer em algo, aí pode esquecer para valer também. Se alguém se pergunta o que é a vida, você acha que um outro alguém a leva a sério? Isso é apenas para os loucos, os únicos que ainda não perderam a esperança de encontrar o seu caminho, não importando se ele é certo ou errado, apenas o caminho. Por que nos preocupamos tanto com miudezas do dia a dia tão aturdido de emoções e ações? Talvez porque somos seres humanos. Esta raça indecifrável e irracional que somos. Balela dizer que somos mais racionais do que emocionais. Esta é a maior mentira que já ouvi em toda a minha vida. Você não concorda? Para mim é sempre o coração que manda mais. E não entorte esta cara aí não seu durão, que eu te conheço muito bem. Você também é humano! Ou não? Ou você é apenas uma máscara sobreposta por carnes e ossos vis? Ah, a vilania um dia acaba. A raça humana também? Também. Ela nunca foi eterna. Ela nunca foi para sempre. Ela nunca foi, na verdade. E depois ainda inventam esta tal história de 2012, de que a raça humana se regenerará. Ha-ha. Se isso fosse acontecer, já teria acontencido há muito tempo. O tempo não importa. O que importa é a vida. Seja em qual forma for. A vida sempre é a essência da montanha-russa que move este mundão aqui. Outros mundões virão. Quando? Não sei. Mas virão. E virão intensa e desabaladamente. Espere. Ou melhor, espere vivendo.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Deitando a fé

A fé precisa de um descanso quando nós também estamos descansando. Caminhar nem sempre é totalmente necessário. Muitas vezes, a mente caminha por si própria. Não é preciso "parar para pensar". Pensar andando é tão interessante que eu acabo sempre pensando muito. Penso tanto que chego a pensar em nada. Sabe quando você olha para as coisas e não consegue pensar em nada? Mas pensar em nada já é pensar, não? Pensar que não pensa em nada já é um ato de pensar. Ou não? Ou estou com um parafuso a menos? Ou a mais? O julgamento do outro ainda me aflige. Mas vou vivendo mesmo assim. Continuem a julgar. A apontar os dedos contra minha face. Na face que o tempo não vai perdoar. Na face onde carrego os meus anseios e sonhos de além-mar. Mas é preciso se reunir em volta de uma grande mesa, em um dia de grande festa. É preciso e urgente. É preciso se olhar mais, andar pelas ruas e olhar, olhar sempre. Mas não um olhar distraído e apressado. É preciso se deter nas esquinas e olhar para o mundo. Ele pede e implora. As pessoas também. Mesmo na individualidade de cada um [redundância para reforçar], todo o mundo espera mesmo é ser olhado. É ou não é? Não falo dos 15 minutos de fama. Falo de ser olhado com atenção e humanidade. Ser olhado como um igual. Ser olhado com os olhos da alma.

sábado, 11 de abril de 2009

Elucubrações

A danada da palavra saltou lá do fundo do meu vocabulário e não pude mais controlá-la. Simplesmente tomou impulso e pulou do penhasco para a vida e para o mundo.

Para o mundo, que nunca se cansa de ser possuído por nós e nos possuir, concomitantemente [nossa, que palavra estranha!]. Você já possuiu o mundo? Já se sentiu pertencer a ele? E a si mesmo? A loucura diária transtorna as inquietações flamejantes aqui dentro de mim. A angústia é a base da minha sensibilidade. Eu a idolatro. Eu a venero. Eu a amo. E estou descobrindo e me inventando a cada dia. Será que ainda vou fazer isso quando estiver velhinho?

Falando nisso, outro dia estava caminhando e ouvi o seguinte diálogo:

- Saiu para dar uma caminhada? - disse um velhinho de um lado da rua.
- Sim. Estou andando um pouco, não muito, só um pouco - respondeu o outro do lado oposto da calçada.
- Ah sim. - completou o outro.

Imediatamente um sorriso brotou do meu rosto ao perceber como os pequenos e singelos diálogos podem ser tão enriquecedores. Você não acha? É, você aí que está com esta expressão de incredulidade em relação à vida!

Que tal caminhar um pouco? Não muito, só um pouco?

quarta-feira, 4 de março de 2009

Passageiro

Ele olhava pela janela... e pensava:
- Quanto tempo será que vou viver?
- Quanto tempo resta para ser feliz?
- O que é o tempo?
- Aquela florzinha ali vai durar até quando?
- E aquela árvore?
- E você?
- Todos correm lá fora.
- Minha mente corre.
- A sua corre?
- Em qual velocidade?
- O mundo é só mundo depois que foi desmundado de si mesmo.
- Que pensamento louco!
- Mas ser louco é tão saudável.
- Mas se você fosse louco não ficaria espalhando aos quatro ventos...
- Mas é só olhar para mim...
- Sinta esta sensibilidade exaltada aqui em minha veia.
- E em meus dedos, que não se submetem ao sono.
- Eles transitam por aí sem parar. Sem cansar.
- Assim como a mente. Que povoa tantos lugares, que nem percebemos quando isso acontece.
- Mas o que são os acontecimentos?
- É quando a gente nasce.
- Estreia?
- Também.
- Nasce e estreia.
- Mas isso é bem gay, não?
- Não. Lá na minha terra, a gente costuma dizer que simplesmente estreamos.
- Vocês?
- Sim. Somos um povo sensacional.
- Que legal. Quero conhecer este lugar.
- Então me conheça primeiro.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

O moço perspicaz

O homem sentou na escada e começou a cortar o cabelo com a gilete mais vagabunda que existe. No meio da cabeça já não havia tanto cabelo. Era o tempo mostrando o seu poder insaciável. Boas condições. Será? E o moço perspicaz? E o pretensioso? Lá vem você com as suas infinitas indagações.

A sanção estava tão sonolenta que esqueceu de se sentar e impor a ordem.

As pessoas são tão normais. Ou não percebem o quanto são comuns. É preciso se diferenciar. Ser único. Mas elas são incentivadas a se juntar, a ser igual, a ser o padrão. Devanear é crime nesse mar de normalidade. Psiquiatra? Sou eu e é você também. É só querer. Basta deixar a brisa levá-lo para longe, onde a criatividade cria asas e penas, e voa para o indiscutível.

Tédio e euforia. Convivem lado a lado. Ora um, ora outro, ora os dois, ora nenhum. E ainda tem mais um monte de sentimentos inomináveis. Por que eles são sempre nomeados? Eu gosto de inventar. Então vou começar a inventar nomes. Sem pedir licença. Não é preciso. Ninguém patenteou ainda.

A cara e a coroa deram as mãos. Ficaram ali sentadas no banco da praça. E o mundo terminou. Poeticamente. Fim.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

O fascínio do livro

Outro dia senti o cheiro da minha biblioteca quando ainda era um garoto que sonhava em se reinventar e descobrir o mundo que havia lá fora. Dona Milla, a querida e apaixonante ‘dona’ da biblioteca, sempre me incentivava a ler, me sugeria livros e, de repente, já trocávamos figurinhas de autores e títulos. Tinha dia que não abria e eu voltava para casa com os livros que já havia devorado rapidamente.

Boas lembranças e um período muito importante, que guardo com carinho e teve sua parcela de contribuição no que sou-estou-faço hoje. Naquela época nem percebia o que acontecia, afinal de contas era o presente e agora já estou no futuro: só sentia um tremendo prazer ao abrir um novo livro e me deliciar com aquelas lindas palavras que me alegravam o espírito. Mas que espírito? O meu ué, você não o conhece? Sugiro conhecer. Ele é super gente boa. Às favas com a modéstia.

A aproximação com o outro tornou-se mais fácil, mesmo mergulhando em mundos paralelos e mágicos nunca antes visitados. Tenho a impressão de que essas ações e a troca de imaginações fazem parte de tudo o que escrevo, de tudo o que transformo em palavras dispersas e olhares contundentes. Mas eu tenho uma confissão a fazer: achava uma tremenda balela quando diziam que se podia viajar por esse mundão todo através dos livros. Não sabia como isso podia ser verdade e então aceitei o desafio e fui conferir de perto.

O caminho não teve volta e até hoje eu vivo e respiro livros, acima de tudo. Parece que estaciono quando não estou com nenhum livro na mochila, a transitar para lá e para cá com uma imensidão de idéias borbulhando, nas páginas e nas curvas da minha mente.

Agradecer à minha grande incentivadora já não posso, mas onde quer que esteja [o que é a morte? Alguém aí sabe?] ela deve saber que deixou um serzinho [EU] aqui na Terra e no barro cru que fez muito bom proveito do exemplo mostrado e do presente dado. A porta da biblioteca agora está sempre aberta e volta e meia o cheirinho [que deve ser de algum alvejante ou coisa do tipo] vêm a tona e invade a semente plantada há tantos anos atrás. Ah, nem faz tanto tempo assim. Mas é que minha relação com o tempo é diversa das demais. Depois explico isso melhor.

Às vezes, olho no espelho e vejo muito clara a imagem daquela criança em construção.