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sexta-feira, 16 de julho de 2010

O silêncio do jejum

Purificação. Ficar um dia inteiro sem falar não é fácil. Não é para qualquer um. Tem que estar forte e perseverante para se voltar para si mesmo e fazer com que os outros se olhem, se sintam a partir do meu silêncio. Da minha loucura, muitos pensaram. Da minha brincadeira, como pensaram outros. Mas o exercício e a missão que abracei hoje vão muito além, é para transcender mesmo e me conectar com meus irmãos, seres de luz como eu, de uma forma que eles permaneçam no bem, antes que a mudança aconteça no íntimo do planeta. Daqui a dois anos. Mesmo com o silêncio externo, sem ouvir o som da voz o dia inteiro, eu conversei muito comigo aqui dentro, onde rolou uns diálogos ardentes, fervorosos e febris, mas não condescendentes com as desgraças bombardeadas contra nós todos os dias. E muitos continuaram a não entender e queriam me fazer falar. Mesmo com o incômodo causado, elas foram modificadas pelo meu ato, que ficou muito mais intenso e certeiro. Hoje, dia oito de julho de dois mil e dez, ficará marcado como a data da transformação interior, que conecta o eu com o outro, numa memória coletiva que me faz ter a certeza de que somos todos um. E temos que ligar, com consistência, nossas glândulas, nossos órgãos, nossas percepções, nossas mentes. O meu deus saúda o teu deus, todos os dias. O lado feminino, o lado direito do cérebro, está aguçadíssimo agora. Consigo pensar com todo o cérebro, integralmente. Esquerdo. Direito. Masculino. Feminino. Razão. Espiritualidade. Branco. Preto. Luz. Treva.

Em busca do equilíbrio. Eu me sinto conectado com meus outros organismos, que não estão visíveis. Que ainda não foram decodificados pela razão e civilidade. O homem no centro. Está mudando. A mulher está mostrando todos os dias. Acorde, se conseguir notar. Abaixo a escravidão moderna, que de moderna não tem nada. Por que você acorda todo dia para trabalhar e ainda consegue se sentir humano? Não viemos aqui para sermos escravizados, muito menos para escravizar. Acorde rápido. Isso não é um sonho. Não adianta você querer acender a luz. Os sóis estão minguando. E esquentando pouco a pouco, assim como o ar que você respira vai escasseando dia após dia. Estou bem. Experiência única, que será repetida em breve. Até a próxima transcendência...

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Dias dispersos

O sabor da inspiração nos faz perceber o quanto a vida pode ser colorida, mesmo quando aquelas nuvens pesadas e carregadas pairam sobre nosso telhado de vidro. Sintonize nas ondas do amor e acredite nele.

O silêncio passou por entre meus dedos finos e fugazes e sussurrou, quase inaudível: a chuva vai molhar teu corpo e te impregnar com o cheiro do orvalho da promissora manhã.

Olhe para a lua, mesmo que esteja embaçada. Sinta o brilho queimar na alma e destrinchar o infinito de emoções, dores, excessos e êxtases presentes neste insaciável corpo, que reluz e revela. E apaga, para renascer no dia seguinte.

Do desejo, do carinho, da atenção se fez o alicerce que nos move. Os passarinhos cantam, enquanto a gente passa de mãos unidas.

domingo, 28 de junho de 2009

Ecoando o passado

As lembranças insistem em permanecer presentes como se fossem independentes e donas de si mesmas. Mas elas são, não são? São sim! E ainda por cima conseguem surpreender. Mas o que fazer se não somos vítimas delas, muito menos escravos? Somos elas e elas também são nós. E isto basta para entender que não conseguimos nos desvencilhar jamais delas. Você consegue não ser você por toda a vida? Acho que não aguentaria. Ah, mas não era aí que eu queria chegar... (onde mesmo eu queria chegar? Pode me ajudar a compreender esta pergunta?).

Chuva. Ruínas. Cimento. Chão. Muro. Matagal. Linha de trem. Trem. Bate-papo. Pingos. Viagem. Admiração. Imensidão. Fúnebre. Mágico. Místico. Passado. Pessoas. Segurança. Abismo. Precipício. Fuga. Dimensões. Imaginação. Consternação. Limpeza. Pureza. Liberdade. Sonhos. Transformação. Aventura. Amizade. Mulher. Amor. Pinhas. Estrada. Silêncio.

Silêncio.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Samba seco

Cutuque o estômago. E não sambe ainda. Não saia por aí dando voltas. Não ainda. Não agora. Se adiantasse esperar, os urubus atacariam mais cedo ou mais tarde. É mais provável que fosse mais cedo.

Amanse o gado. Amanse a alma. Amanse os céus. Amanse a fera. Amanse o sol. Amanse a lua fulgurante. Amanse o dia. A noite. O chão. A floresta. A coruja. O rato. Os olhos. Menos a cantoria. Esta tem que ser gritada e esperneada na cara de quem vive sem música. Como pode? Como deve? É proibido! E eu estou dizendo e registrando. Registrando para amanhã. Não para hoje. Nem para ontem. Sempre para amanhã.

Você viveu hoje! Ou não? Ou apenas passou pelas horas, minutos e segundos sem perceber que o dia era pra ser vivido hoje e não amanhã... Percebeu? Comeu? Roncou? Sofreu? Resvalou? Calou?

Silêncio. Até os pássaros fizeram o pacto. O pacto do silêncio ensurdecedor.

domingo, 9 de novembro de 2008

O pássaro e o navio

Um pássaro no rosto e uma idéia passeando por todos os escaravelhos e recantos ensimesmados e esnobes. Na estante, restou apenas o que era saudade. Mas do que foi vivido e não esquecido. Intempestivo, não soube apreciar a maravilha de viver apenas uma vez. Para quê mais? É uma oportunidade e nada mais. Que entendiante seria saber que eu teria outra e mais outra chance para refazer as cagadas espalhadas pela estrada tortuosa e inesperada.

O incerto do certo é a lucidez entranhada nos erros necessariamente indispensáveis.

A batina não serviu para transformar seu corpo em nada, apenas em tudo o que havia de mais rejeitado. De repente, nem ele sabia porque a usava.

Porque eu sou a insanidade e o espírito inquieto e peralta que perambula pelo mundo para perder e ganhar faz parte de um jogo intrincado e contente. É o saber da história guiando o leme do navio desgovernado. Esta é nossa vida. A metáfora do inexperiente navegante. Marujo, você nunca saberá o que há depois do horizonte.

Por fim, o final chegou e já não se ouvia mais nada. Muito menos o silêncio.

domingo, 31 de agosto de 2008

Família em volta da mesa

Anúncio: reunião em família. Corram porque isto é inédito! Êba, final incrível esperada desregulada alegremente. Abaixo a cabeça e penso que estes momentos poderiam ser mais freqüentes, não fosse a escravização que nos relega o papel de coadjuvantes na vida um do outro. Dorme quando sai. Acorda quando durmo. Espreguiça para só descansar e esperar pelo dia da reunião. Quem ainda não conseguiu fazer isso neste ano, calma, o Natal já está aí. Não se apoquente, é depois de amanhã.

Privilegiando certas coisas e dizendo para tudo o que há de menos sagrado que a beleza está nas coisas que não podemos tocar, quantificar, esquematizar, planejar, levar para onde se pode explodir num canto sujo de graus variados e inflamáveis. Dormi de óculos outro dia. “Você sabia que 6 e meia da manhã vi que você dormia de óculos, você passou a noite inteirinha de óculos!”. Eu pensei que seria melhor assim, pois, assim de novo, eu veria com mais clareza aquilo que se esconde por trás da minha consciência. Sempre tento, mas ainda não deu certo.

Um dia dá. Enquanto isso, espero. Aguardei a campainha tocar, mas não foi o toque que eu previra naquele sonho exaltado que tive na noite passada, quando um homem mascarado e cheio de mistérios batia à minha porta com delicadeza e virilidade ao mesmo tempo, mas quanto mais me aproximava mais ele se distanciava. Um sinal, um indício que percebi no vulto envolto em névoa foi uma mancha de um vermelho intenso que borrava a boca de sua máscara e se estendia até a barra de sua bata. Minha nossa, era um seminarista. Pecador! Infame e endiabrado. Dizem que a escadaria o espera de joelhos, mas eu duvido que isso possa ocorrer. Acho apenas curioso e aguça minha estranha entranha embutida na minha vaidade.

Mas será que existiu mesmo aquela reunião em volta da mesa? Era uma mesa? Havia comida? Ou aflições? Ou uma sopa de olhares? Ou de carinhos? Uma salada de expectativas para a próxima vida ou vinda da iluminação que antes não havia ali? A água foi lançada ao fogo e não conseguiu resistir à potencialidade da força intrínseca às labaredas que subiam até o mais alto dos cumes mutilados nas estrofes das esquerdas maravilhas e arbustos disfarçados de humano.

Um ano se passou e o mês passado ainda vive no imaginário daquelas pessoas que se uniram num único desejo e sentimento: fazer acreditar na pedrinha não-preciosa energética imaculada virgem poderosa Maria. Animando a libido escrachada nas expressões renovadas de monossílabas preenchidas de silêncio. O sal de frutas estava em cima da mesa e não se dissolveu e a reunião desabou como um escorregão na casca da banana. Outra circunstância.