As marcas se embrenham na face como o machado cortando a lenha, como os traços que vão sendo desenhados no papel. Mesmo que o desenho não seja belo [mas o que é ser belo?], cada um vai construindo os seus contornos. O tempo passa, a idade chega e as marcas ficam para sempre. Depois se dissolvem. Mas ficam por muito tempo. Para uns, é apenas um detalhe. Para outros, aquelas pequenas rugas tornam-se um dramalhão mexicano. Mal sabe eles que são extremamente necessárias. São cheias de significados, emoções, histórias. E as marcas de infância? As marcas das peraltices. Você, com certeza, deve ter alguma aí pelo corpo. Na infância, eu gostava de brincar com fogo, até que o fogo um dia resolveu brincar comigo e deixou uma marca eterna na minha perna esquerda... Crianças: não misture plástico com fogo. Vocês podem se machucar. Mas se se atreverem, como eu, sejam mais cuidadosas. Ou não.
O olhar submisso abaixou para o lugar onde estava acostumado. Para o lugar onde ele achava que era o seu. Mas não era, de jeito nenhum. Eu tentei dizer com meu olhar que não podia ser sempre assim. Que não era pra ser. Mas ele tentou de leve, timidamente, me encarar. Mas a opressão estava tão estampada em sua expressão que não pude fazer muita coisa. Mas espero que ele encontre forças internas, onde ninguém acredita que tenha, para quebrar as correntes e seguir adiante. Independente. Dono de si. Do corpo. Da alma. De sua existência. Curtíssima.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
Ânsia
A lealdade é mais fiel do que a ânsia de se aperceber daquilo que não se pertence ou não se almeja. Mas o que é a lealdade? Ora, é nada mais nada menos do que um cãozinho deitado na irradiante alegria de estar no mundo. De respirar e ser fiel à vida.
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
Na rodoviária
Não estava cheia, mas tinha gente. A minha matéria-prima. O que me alimenta a cada dia, mesmo que eu não veja tanta gente todos os dias. Não canso de repetir e frisar o quanto sou somado e somo com todos eles. Todos aqueles abraços, beijos, carinhos, felicidade do reencontro.
A espera.
Todos caminham de lá para cá. Olham para um grande painel. Uns apreensivos. Outros nem tanto. Atrasos e mais atrasos.
A chegada.
Os abraços apertados possuídos de muita saudade. Um casal de velhinhos que mal se enxergam mas se sentem profundamente ligados. Os reencontros de vidas. Os olhares. A expectativa da chegada.
Um beijo apaixonado.
Durou alguns poucos segundos. Uns 30 talvez. Não cronometrei, né? Mas era um beijo de paixão, saudoso de tempos bonitos vividos juntos. Pessoas que nunca vi, mas que partilharam comigo minutos tão preciosos. Não só para eles. Desconfio que sejam muito mais importantes para mim.
O mais importante é o que se pensa de si. Que os 'sis' das outras pessoas sejam guiados de forma autônoma, sem interferências de tantos outros 'sis' tão atrapalhados e disfarçados de boas intenções. O inferno. Cheio está.
A espera.
Todos caminham de lá para cá. Olham para um grande painel. Uns apreensivos. Outros nem tanto. Atrasos e mais atrasos.
A chegada.
Os abraços apertados possuídos de muita saudade. Um casal de velhinhos que mal se enxergam mas se sentem profundamente ligados. Os reencontros de vidas. Os olhares. A expectativa da chegada.
Um beijo apaixonado.
Durou alguns poucos segundos. Uns 30 talvez. Não cronometrei, né? Mas era um beijo de paixão, saudoso de tempos bonitos vividos juntos. Pessoas que nunca vi, mas que partilharam comigo minutos tão preciosos. Não só para eles. Desconfio que sejam muito mais importantes para mim.
O mais importante é o que se pensa de si. Que os 'sis' das outras pessoas sejam guiados de forma autônoma, sem interferências de tantos outros 'sis' tão atrapalhados e disfarçados de boas intenções. O inferno. Cheio está.
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segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
O menino e a pipa
Uma senhora desesperada. Nos seus olhos havia muita aflição. Tomara que o verbo esteja agora no passado. Tomara que tenha passado. É preciso reparar mais nos olhos daqueles, daquelas e daqueles outros ali.
Um menino brincava com sua pipa no meio da rua. O brinquedo era quase maior do que ele e o sorriso se expandia por seu rosto. A sua pele negra constrastava com aquele sol intenso de fim de tarde. Outro garoto, maior que ele, também brincava, pouco se importando com os anos e o tempo, e a idade.
Dois outros deles chamaram a atenção muito antes da imagem da pipa e do menino. Eram dois filhos e irmãos. Pelo menos é o que pareciam. Espiavam do portão, com muita cautela, como se escondessem de algo. Mas era realmente plausível que estivessem se escondendo de alguém, não de algo. Eles analisavam atentamente até que farejassem o melhor momento para a escapulida.
A rua é sempre uma fonte inesgotável de histórias e memórias.
Uma senhora que estava sentada na calçada batendo papo com as amigas olhou com atenção para a mocinha que passava na rua com um short curtíssimo, daqueles que os homens vêem até o útero. A expressão da mulher foi de surpresa e também de saudade. Eu fiquei imaginando se na época dela era possível, ou sequer imaginável, tal transgressão.
Um menino brincava com sua pipa no meio da rua. O brinquedo era quase maior do que ele e o sorriso se expandia por seu rosto. A sua pele negra constrastava com aquele sol intenso de fim de tarde. Outro garoto, maior que ele, também brincava, pouco se importando com os anos e o tempo, e a idade.
Dois outros deles chamaram a atenção muito antes da imagem da pipa e do menino. Eram dois filhos e irmãos. Pelo menos é o que pareciam. Espiavam do portão, com muita cautela, como se escondessem de algo. Mas era realmente plausível que estivessem se escondendo de alguém, não de algo. Eles analisavam atentamente até que farejassem o melhor momento para a escapulida.
A rua é sempre uma fonte inesgotável de histórias e memórias.
Uma senhora que estava sentada na calçada batendo papo com as amigas olhou com atenção para a mocinha que passava na rua com um short curtíssimo, daqueles que os homens vêem até o útero. A expressão da mulher foi de surpresa e também de saudade. Eu fiquei imaginando se na época dela era possível, ou sequer imaginável, tal transgressão.
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domingo, 11 de janeiro de 2009
Normal
...
- Não, estou falando de uma coisa normal.
- Como assim?
- Ah, você entende.
- Não, não entendo. O que é ser normal para você?
- Ah, você sabe né... Homem, mulher.
- Será que vale a pena essa discussão?
- Não estou discutindo nada, só estou falando o que penso.
- Seria melhor se esconder debaixo da cama então.
- O quê?
- É. Se esconder embaixo da cama desarrumada.
- Para quê?
- Para entender que não há nada normal.
- Então o mundo todo é bagunçado?
- Sem sombra de dúvidas.
- Até homem... e mulher?
- Claro. A cama simboliza exatamente isso.
- Então é tudo uma zona?
- Sim, até mesmo aquilo que tenta parecer normal é bizarro.
- Quem disse?
- Eu tô dizendo, ora bolas.
- Cada uma...
- A cada duas também.
- Acho melhor mudarmos de assunto.
- Tudo bem, mas acabaremos sempre na mesma anormalidade que é viver.
- Viver é um percalço enorme pelo qual todos temos que passar.
- Não disse? Você já está aí a devanear...
Intrínseco.
- Não, estou falando de uma coisa normal.
- Como assim?
- Ah, você entende.
- Não, não entendo. O que é ser normal para você?
- Ah, você sabe né... Homem, mulher.
- Será que vale a pena essa discussão?
- Não estou discutindo nada, só estou falando o que penso.
- Seria melhor se esconder debaixo da cama então.
- O quê?
- É. Se esconder embaixo da cama desarrumada.
- Para quê?
- Para entender que não há nada normal.
- Então o mundo todo é bagunçado?
- Sem sombra de dúvidas.
- Até homem... e mulher?
- Claro. A cama simboliza exatamente isso.
- Então é tudo uma zona?
- Sim, até mesmo aquilo que tenta parecer normal é bizarro.
- Quem disse?
- Eu tô dizendo, ora bolas.
- Cada uma...
- A cada duas também.
- Acho melhor mudarmos de assunto.
- Tudo bem, mas acabaremos sempre na mesma anormalidade que é viver.
- Viver é um percalço enorme pelo qual todos temos que passar.
- Não disse? Você já está aí a devanear...
Intrínseco.
sábado, 10 de janeiro de 2009
Aquele domingo...
De repente, se lembrou das sensações que sentiu naquele domingo à tarde. Era um dia muito ensolarado de dois anos atrás. Os instrumentos ainda não tinham chegado. O sol batia com força e sem piedade sobre nossas cabeças. Todos ali eram estranhos e ao mesmo tempo conhecidos, irmãos de uma mesma realidade. A percussão começou dali alguns instantes. Os novos alunos estavam maravilhados com o som e com a oportunidade de sugerir um novo percurso e trajeto para as suas vidas. A emancipação de suas almas em torno da transformação do lugar. A arte. Os amigos. As coisas boas da vida. As memórias. Os ritmos. Os acordes. As batidas. As sonoridades. O colorido de tudo aquilo. A respiração descompassada. O alongamento que despertou uma surpresa no corpo e interferiu diretamente no pensamento. Ali era o começo. Do quê? Ele não sabia. Só sabia que era algo novo e digno de esperança e sucesso. Do abraço e receptividade plena alcançada naquele círculo, a lembrança permanece ainda em carne viva. Firme e forte e temperada de muitos sambas e afoxés. Batucadas. Venha. Continue. Pois a batucada ainda pulsa aqui em minhas veias.
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sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Hélices
O helicóptero surgiu do nada pegando fogo e querendo engolir a tudo e a todos. Foi possível ver até os dois ocupantes, que não tiveram escapatória. O pânico se espalhou pela festa, foi uma correria só. Todos gritavam, apavorados, com a certeza de que a hora da morte havia chegado. Ele apareceu bem na hora que pularíamos na piscina e eu havia acabado de entregar o microfone para alguém, para não danificar. Depois de explosões seguidas e estilhaços para todos os lados, acho que todos ficaram vivos. É, acho que nem todos. Havia muito fogo.
E acordei do sonho. Lembrei!
E acordei do sonho. Lembrei!
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