quarta-feira, 13 de maio de 2009

Magrela sorridente

Assim que a magrela põe suas duas rodas na rua, todos os olhares se voltam e se alegram. Os pequenos garotos quase não se aguentam e a admiram. O seu esplendor é como mel, ou melhor, como o doce comprado na pequena vendinha perto de suas casas. Os olhos brilham. Eu consigo ver daqui. É sério. É sério e tão lúdico. É tão terno que me enterneço junto e sorrio com a alma. Com os olhos me desfaço em compulsão por ver aqueles sorrisos fulgurantes que ainda perdurarão por anos a fio.

Foi bom voltar a andar com minha magrela. Ela me lembra aqueles anos onde o mundo parecia o melhor lugar para se viver. Ele ainda é, mas hoje preciso criar outros mundos para suportar as realidades que se jogam na minha frente tão apressadas quanto o trem atrasado.

Foi bom também voltar ao passado. Aos lugares do passado. Às ruas do passado. Às salas de aula do passado. Ao passado propriamente dito. É como um flash back. É como o passado tão vivo quanto ele não conseguiu ser enquanto acontecia. Ele não foi tão forte naquela época. Mas hoje ele é sim. Tinha tanto medo que o passado ficasse marcado apenas com suas manchas encardidas, mas não, não permiti. E não permitirei enquanto houver um lampejo que seja de fututo. De futuro e de raios. Sejam eles do sol ou da tempestade.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

A ambulância na mente

Hoje, a saudade bateu na porta. Não bateu de se chocar, mas bateu de bater mesmo. Ontem também? Não sei. Se ela se achegou para perto não se mostrou muito presente e foi bem sorrateira. Mas as lembranças são assim mesmo, quando menos se quer elas estão lá. Mas eu queria e deixei elas pipocarem. Lembra do dia do atraso? Lembra do dia do corre-corre? Lembra do dia da catuaba? Lembra do dia chuvoso? Lembra das viagens? Lembra das besteiras? Lembra dos momentos estressados? Lembra do falso coleguismo? Lembra da velha metida a teórica e que adorava Antônio Nóbrega? Lembra da falta do que fazer? Lembra de não ter se arriscado tanto quanto poderia? Lembra da mesmice das botas de astronautas? Lembra das discussões e da falta delas? Lembra dos olhares tortos? Lembra dos botecos na grande avenida barulhenta? Lembra do muito sono que sentia e que não te deixava raciocionar direito? Lembra das descobertas? Lembra do aprendizado? Lembra daquelas pessoas? Quantas ficaram? Quantas se foram? Quantas nunca estiveram? Quantas sempre fingiram muito bem? Quantas foram ternas o tempo todo? Quantas lembranças são pertinentes? Quantos desejos são derradeiros? Quanta vontade acumulada em um só ser...

domingo, 10 de maio de 2009

A tiazinha psicodélica

Ela estava lá. Mas que grande surpresa. Ela realmente tem bom gosto. Já a encontrei duas vezes. E suas coreografias psicodélicas são as melhores. Super original. Fico embasbacado quando vejo. É incrível, porque só tenho olhos para ela. Com sua blusa de frio - mesmo não estando frio - e sua bolsa a tira-colo, ela dança sem medo de olhares tortos. Ela dança e encanta com sua fé em si mesma. Será que é mãe? Será que é avó? Cadê seus filhos? Cadê? Um dia ainda vou responder estas questões. Da próxima vez, terei que ter uma foto dela, um vídeo, ou algo do tipo. É sensacional. Você também precisa ver. Precisa ver que é possível dançar da forma que se quer, não da forma que se pede. Cada acorde é um balanço. Cada nota musical é um sorriso. Cada batuque é um olhar para o céu e outro para a Terra. Até a próxima tiazinha!

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Risco de vida

É tão estranho quando se houve algo do tipo: "fulano está correndo risco de vida". Mas o risco de viver já não nos é intrínseco desde a hora que a luz do mundo vem à tona (ou seria a luz dos olhos, das janelas da alma?)? Então, não seja descuidado ao usar esta expressão. É feio, mocinho. O melhor é dizer "risco de morte". Este sim é tenebroso, cruel, abominável, mas é mais real do que a própria vida. Mas isso é papo de quem está à beira de cortar os pulsos e jogá-los pela janela do décimo terceiro andar. Pare com isso. Já!

Mas digo e torno a dizer: sai pra lá, não se achegue nem se aconchegue muito perto. Perigo de contaminação. Perigo de enlouquecer. Perigo de não viver. Perigo de deixar para trás tudo o que se viveu. Perigo para as importâncias tão desimportantes. Perigo para o carinho que nunca recebeu. Perigo para o amigo fraterno e terno. Perigo para a família e sua base maculada de mundanos sacrilégios. Perigo para as vaias que advêm de todos os cantos. Perigo para o humor que anda tão mal-humorado. Perigo para a esperança desesperançosa. Perigo para a inspiração, que torna e retorna para o sopro da vida.

Da vida. Não da morte. Porque a morte não tem sopro. Apenas silêncio.

terça-feira, 5 de maio de 2009

A flor da pele

O umbigo não consegue se concentrar no centro do seu universo. A Terra já não gira da mesma forma que girou ontem. O sol queima mais. A lua às vezes se esconde. A voz não sai. O dia não é mais tão claro. Mas a luz ainda é ensurdecedora.

A flor da pele já não está mais floreando nas primaveras. As pessoas já não completam mais primaveras. Apenas anos e mais anos, que passam tão desapercebidos. As cenas da vida real são cortadas, os planos se sucedem velozmente. O corpo estendido no chão, dormindo pesadamente, não incomoda, não existe, não é.

Já já é dia. E logo é noite. E o outro dia não demora a chegar. E o outro ano está batendo na minha porta. E a urgência da vida às vezes oprime, incomoda, reflete, inverte. Mente.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

O vento uivante

A chuva caiu. O tempo gelou. O moço não viu. E não esquentou.

Hoje o vento uivou. Uivou tanto que lembrei de uma pergunta. Um dia, em um dia já muito distante daqui, me perguntaram se eu tinha medo de algo. Respondi que não. Mas hoje eu descobri que tenho sim. Tenho medo de ventos uivantes. Eles entraram pela janela e eram de todos os formatos. Se eu vi as formas? Mas é claro que eu vi. Você nunca viu? Tinha um triangular, bem traiçoeiro; o outro, era arrendodado nas pontas e tinha um corpo-violão que o deixava com aparência bem engraçada; já o outro parecia um ovo mal frito. E tinha muito outros formatos. Mas só te conto quando você também puder ver as formas do vento. E cada um deles uiva de uma forma. Não é nada bonito de se ver. Muito menos de se ouvir. Ainda mais quando você está em uma casa fechada e escura. Não recomendo nem disfarço o medo. Antes - bem antes - tinha medo de escuro. Mas o escuro já não inspira mais nada num mundo que é cada vez mais fúnebre e tocantemente manchado de negras, brancas e pardas manchas de dor.

O baile começou. A chuva parou. O homem dançou. E a mulher brilhou. E a lua ficou no seu pedestal. Aquele pedestal que os ventos uivantes não ousam nem pensar em se aproximar.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Estalos

Como será meu rosto quando velho?

Eu ouvi o meu nome. Você também ouviu, xará?

O chá esfriou.

A pomba sujou tudo ali após despencar lá de cima sua arma letal. Caiu ao meu lado. O barulho trazido pelo vento é pavoroso. Escapei. Ufa!

Quando tapo os ouvidos, mesmo no meio da ventania, costumo ouvir meus sussurros interiores.

As pessoas estão tão expressivas hoje em dia que acabaram se tornando caricatas ao extremo.

Depois do estalar de dedos, nada mais foi do jeito que era, nada mais será o que será...