quarta-feira, 25 de março de 2009

Um livro

As ondas sonoras notadamente marcadas pelo piano e por uma voz suavemente eufórica por emocionar me fazem tremer nas bases, mas também me fazem acreditar cada vez mais que eu tenho o poder de transformar o que chamam de destino. De intervir. De cutucar. De pôr o dedo mindinho na ferida exposta. De escrever um livro.

Eu quero escrever um livro. E querer já é alguma coisa, ou não? Você consegue me dizer que não? Por quê você não escreve um também? Não dizem que essa é uma das coisas que devemos fazer durante a vida? Então faça. Ou pelo menos sonhe que escreveu uma obra tão sádica quanto a própria vida. Tão serena quanto o próprio pôr-do-sol. Tão exultante quanto um beija-flor bebericando em uma flor do jardim. Sonhe que está sonhando. E a vida já terá valido a pena. [Odeio esse meu lado auto-ajuda. Mas é uma auto-ajuda só para mim. E daí?]

O que estará escrito no meu livro? Quantas páginas terá? Haverá desenhos? Ih, lembrei agora de um amigo da escola - eu devia estar na sexta ou sétima série do ensino fundamental - que não gostava de livros sem figuras e ilustrações. Ele mesmo subestimava a imaginação, não deixava ela alçar voos por aí. Eu deixo a minha fazer o que bem entender. E é por isso que estou aqui. Para anunciar:

Eu vou escrever um livro. Acredite!

terça-feira, 24 de março de 2009

Resiliência...

... é um termo utilizado para definir a capacidade de passar por experiências adversas sucessivas sem prejuízos para o desenvolvimento. Mesmo que os olhos ardam intensamente e a cabeça funcione como um turbilhão de imagens durante um sono agitado e molhadamente febril? Mesmo que a dor lancinante tome conta do corpo inteiro sem dar descanso nem mesmo para a mente? Mesmo que eu já não compreenda o que é estar num lugar sem poder desfrutar dos prazeres e valores inalienáveis ao espaço físico e psíquico?

Mesmo que a Igreja pregue uma missa para os moradores de rua na RUA em frente ao templo de hipocrisia? O absurdo estava tão perto de mim que parecia surrealmente assustador. Não queria acreditar no que via, ouvia, sentia. A infâmia da cena me fez desacreditar ainda mais nas instituições que promovem a culpa prometendo a redenção do espírito. Blá!

Os corpos correm e se agitam a minha volta e eu não posso tocá-los, nem mesmo em minha imaginação. E muito menos na imaginação daquela velhinha que sonha com a volta dos peixinhos vermelhos pulando em seu barco - num rio que atualmente é mais imundo do que a corja de políticos e politicagens.

Sereno e objetivo. Cruel e espantado. Debruçado e desabitado. Transformação e resiliência. Esta última terá que passar de termo para ação na vida diária e loucamente desbundada. Mas são apenas duas décadas de dores e desejos, o que você quer que eu faça?

terça-feira, 17 de março de 2009

Para um rosto sem nome...


Para um nome sem rosto... Para um olhar desconcertante e suplicante. Para mim e para você. Para a expressão 'um dia'. Para o príncipe e a princesa encantados. Para o universo em chamas. Para um corpo desprovido de preconceitos. Para uma alma branda e singela. Para você.

Um olhar desconcertado.

domingo, 15 de março de 2009

Pai

Um exemplo de vida. De luta. De saber. De garra. De dar o sangue pelos filhos. De ser determinado ao ponto de não entregar os pontos jamais. De sangue quente e bem baiano. Ele andava pela rua e não se desmanchava em nenhum momento. Sempre levou a família com muita sabedoria. Sua barriguinha de chopp denota que o tempo passou e que continuará passando. Suas brincadeiras e seus abraços são tão aconchegantes e estovados que me fazem feliz por longuíssimos instantes. Quando ele chega tudo se ilumina. É sério. Isso é muito clichê, mas é a pura verdade, mesmo que não exista verdade pura. A única coisa que sei é que ele existe, para sempre em mim, para sempre em meus gestos. Sou parecido com ele de tempos em tempos. Sou ele de tempos em tempos. Me espelho nele sempre. Porque ele é ele e ninguém mais [ó, que profundo]. Caminhando na rua pela madrugada, lembrei que hoje era seu aniversário. Olha como o tempo se mostra razoavelmente cruel! Ontem ele estava se casando e dando início a esta linda e unida família, e hoje já está completando fugazes 47 anos. Quando chegou na grande cidade, sabe qual foi a primeira coisa que fez? Rodou todas as escolas do bairro para encontrar vagas para os filhos. Quer exemplo melhor do que esse? Detalhe: ele não teve oportunidades e estudou apenas até a 4ª série. Acho que com esse exemplo consigo dar uma leve noção do que ele representa, do que ele é, do que ele faz, do que ele constrói, do que ele exala, do que ele exalta, do que ele valoriza, do que ele vive, do que ele sonha, do que ele almeja, do que ele busca, do que ele vê, do que ele ama. E do que ele vai viver pelos muitos anos que tem pela frente... pela frente das dificuldades e alegrias que ainda o esperam.

quinta-feira, 12 de março de 2009

A moça apaixonada

A moça estava lá. Apaixonada. Ria sozinha. Se entretinha sozinha. Se exaltava sozinha. Sentada ali, exultava de alegria. E eu tentando imaginar de onde viria tanta felicidade. Ela também ouvia música. Será que era a música que a deixava daquele jeito? Depende da música, é claro. E eu imaginando como era bom aquilo. Não sabia se ela estava realmente apaixonada, mas me fez lembrar como é bom sentir isso. Me fez lembrar porque faz muito tempo que não pego uma rosa na mão. Que não enlouqueço o arco-íris dentro de mim mesmo. Dentro de ti. Dentro do universo. Mas me deixou feliz vê-la daquela forma sabia? Ela parecia não conter dentro de si de tanta felicidade. E eu pobre mortal imaginando a próxima vez que me sentiria daquela forma. As pessoas me emocionam. Olhar seus atos me emociona. Olhar seus olhares me emociona. Olhar seus gestos me emociona. Suas escolhas. Seus erros. Seus acertos. Suas memórias. Suas expectativas. Na rodoviária do Tietê me sinto eu, me sinto só, me sinto pertencente a um mundo que nem sempre é meu, me sinto presente, me sinto igual, me sinto só. Somente compartilhando aquele momento único de olhar e ver que aquilo não passa da essência da vida impregnada de mais vida ainda que implora cada vez mais pela vida que explana daqui e dali e não se cansa de regurgitar diante dos meus pés. A vida. Taí, a vida me transtorna de tal forma que começo a ouvir a chuva lá fora. Houve chuva. Há chuva. Em mim. É passageiro. Um relâmpago na minha vida efêmera.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Espernear

Um ser andante e apaixonado pela lua... eis o que sou. Eis o que pretendi ser durante muito tempo, até conseguir. Até canalizar minhas energias para projetos nunca antes navegados. Tudo isso foi tão custoso que pode-se comparar ao sangramento de uma vaca na hora do abate. Muito suor rolou. Muita preocupação. Muita insatisfação. Muita doutrinação das minhas vontades inimagináveis. A construção de um repertório depende mais do querer do que do ter propriamente. A propriedade do intelecto é só sua e de mais ninguém. Quem será audacioso o bastante para roubá-la de ti? De mim e de nós? Eu duvido.

Estava pensando sobre o ceticismo da vida, sobre a obra não acabada todos os dias. Ou você deita sua cabeça no travesseiro e pensa: 'nossa, hoje eu fiz tudo o que eu queria fazer'. Acho difícil. Sabe por quê? Porque somos demasiadamente insatisfeitos, e talvez aí resida o segredo de viver. De estar aqui. Ou ali. De permanecer. De correr. De ficar a ver navios. De não se mover. De se resignar. De lutar. De chorar. De não dormir. De gritar. De espernear. De beijar. De 'fazer amor'. De transcender. De duvidar.

Mas o que passou, passou, dizem os mais desavisados. Mas e aquela velhinha que estava na calçada esperando o semáforo fechar para conseguir atravessar a rua? Alguém se importou? Alguém lhe estendeu a mão? Alguém sequer olhou? Eu olhei, sem demagogia e pedantismo. E estendi meus dedos finos em sua direção, no que ela me deu presente um lindo sorriso de agradecimento. Pequenos gestos podem conter grandes acontecimentos.

É verdade. A minha verdade ou a sua. Não importa. A verdade nem sempre é a melhor parte do dia.

terça-feira, 10 de março de 2009

Intensos

Apago tudo o que não me é mais conveniente. Apago até minha aparição de vez em quando, porque eu mesmo não me acho conveniente às vezes. Você já se sentiu inconveniente?

Mas estou tão intenso nos últimos dias que mal caibo em mim. Acordo até feliz. Sem preguiça. Trabalho até feliz. Mesmo pela manhã, quando a moleza toma conta até do cérebro. Que curioso!

O ronco não é nada mais do que eu enrustido em meus pensamentos profundos durante os sonhos mais loucos. Eu estou lembrando nos últimos dias. E isso é ótimo. Mas eles são tão frágeis quanto você. Quando menos espero, já se foi. Já fui. Já não estou. Já não lembro. Já não sonhei.