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terça-feira, 8 de dezembro de 2009

[des]Conectado

Até quem vive das palavras, quem não consegue viver sem elas, às vezes, sofre de um mal: não vêm quando mais queremos que elas apareçam, como um foguete sendo lançado à lua. Elas pirraçam e insistem em não dar o ar da graça. Mas não há outras formas de se manifestar? Mas é claro que há. Mas e se essas outras formas também não suprirem o poder de transbordamento do próprio eu? Recebi por e-mail algumas linhas de um amigo, que não se diz poeta, mas é sim! Ele fala sobre uma experiência transcendental que estamos vivendo em Perus, bairro periférico da zona noroeste de Sampa. Para entender o que estou falando, acesse Comunidade Cultural Quilombaque clicando aqui. Antes disso, leia seu relato:

"Desconectar
E logo eu que falo tanto, tenho tantas palavras.
Desisto, não consigo dizer qualquer uma que defina tudo isso que aconteceu, que está acontecendo, que as fotos mostram e tornam ainda maior minha impotência. Mesmo que fale por dias, semanas, meses a fio, sem parar, não conseguiria descrever, muito menos explicar. Tentei experimentar só sentir, não deu, o corpo ficou pequeno, transbordou. Compartilhei com mais pessoas, e mais, e mais, e mais, e mais, e mais...
Resolvi voltar à racionalidade, reforçada pelo pragmatismo, até pela filosofia, pela sociologia e pela poesia. Não dá, sempre transborda, escapa e volto pra lá.
Desisto. Não consigo explicar.
É... bem... enfim... ahh... deixa estar...
Vou me esconder no secreto blog de poesias do Silvinho!

Se ainda sei quem sou,

Soró"

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Fuja enquanto há tempo

Os sons da caixinha de música não me espantam, me enlevam em sua beleza serena das noites enluaradas e mornas. A brisa vem balançar os seus cabelos de vez em quando. Mas só muito de vez em quando mesmo, porque eu olho feio e ela logo muda seu rumo. Na sala escura do cinema, ele se diverte. Ri às gargalhadas. Quer dizer, nem tanto assim. Mas ri. Se diverte de verdade. Sorri e se emociona. Também, com aqueles poemas musicados todos pulando diante de seus olhos sem descanso, não poderia ser diferente. Diferente... Você é diferente, sabia? Diferente de tudo o que existiu. Mas mesmo você não existindo em carne e osso e detalhes desinteressantes, está aqui comigo... seja por meio de seu timbre que sonhei na outra noite, ou pelo perfume que senti na rua outro dia, sem poder identificar o portador. Mas a poesia está aí, basta você abrir seus olhos. E seus poros também. Abra sem medo. Abra sem preconceitos. Abra os braços e corra velozmente pelos campos verdejantes da imaginação sem cabrestos. Mais quer dizer mais e mais. Mais toques, mais cheiros, mais lábios, mais faces, mais passos, mais ruídos, mais olhares piscados, mais compreensão diante da folha que cai da árvore solitária na calçada. Ninguém a olha. Ninguém a sente. Ninguém a nota. O que eles anotam são seus compromissos super importantes da sexta-feira lotada de afazeres. E a vida passa. Veloz. Curta. E contundente. Ela passa e você nem percebe. Nem a olha. Nem a sente. Nem a nota...

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Liberdade e Paraíso

A Liberdade é chegar ao Paraíso ou o Paraíso é chegar à Liberdade? A santidade está debaixo das minhas calças ou das suas? A auréola foi feita apenas para adornar ou tem um duplo sentido? A poluição está nas mentes ou ainda não conseguiu perfurá-las? As nomeações são importantes ou servem apenas para designar tediosos pódios e hierarquias?

A pergunta é uma forma de calar ou de espantar as explicações? Não o sei, por isso pergunto. Está claro que nada é tão clarividente a ponto de prever o futuro. Se ele é construído e desconstruído a cada dia, como podem ler minha mão e dizer que tropeçarei na esquina seguinte? Agora uma coisa é certa: eu sou capaz de ler o meu futuro. Você está rindo né? Não ria, eu aconselho. A eterna edificação do amanhã só depende de nós. As pessoas precisam perceber isso. Pra mim é uma coisa tão óbvia! E é preciso delatar também: muitas coisas nos impedem de enxergar. E a cegueira é triste.

A igreja.

As rimas podem ser feitas por todos. A poesia também. Bastam sensibilidade e atenção para o que é essencial. Aliás, o essencial e a essência são tão particulares que apenas uma mente pode descrever e instituir: isto é poesia para mim. A poesia nada mais é do que a descrição dos nossos ‘eus’. E não importa a forma com que ela seja expressa.

A irritação e mal-humor toldam os melhores sonhos e empobrecem o dia-a-dia, que não conseguem se tornar noite, pois é o preço que se paga: viver eternamente na intranqüilidade dos aflitos por nada. É tudo tão rápido e avassalador e nós, que somos uns bobos, achamos que está tudo tão lento. Nem a nossa justiça é lenta. Não é brincadeira. Falo sério.

O Brasil.

A mão esquerda tremelica. Está doida coitadinha. Eu hein!

domingo, 19 de outubro de 2008

Sábado inédito

Foram todos exibidos naquela espécie de plástico branco. Criava-se ali um momento exclusivo e emocionante. Era o cinema na praça. Lacrimejando, meus olhos lembram-se daquelas cenas e ângulos em foco naquela noite nublada e com a chuva anunciando uma festa interrompida. Não foi o que aconteceu. São Pedro deve ter segurado um pouco o desabamento de suas lágrimas, ou talvez tenha se emocionado também e, por isso mesmo, tardou jogar seus pingos d’água sobre o povo.

Fico numa contradição só ao perceber que me faltam palavras para descrever aqueles instantes de comunhão e multiplicação de risadas, sonhos, olhares atentos e expectativas pelo próximo filme. As palmas pipocavam aqui e ali e as pipocas eram distribuídas gratuitamente. Ah, mas eu tô com vontade é de fazer poesia. Versos e mais versos. Poeta em construção ou a construção de um poeta? Talvez nem um nem outro. Apenas um homem querendo expressar seus mais íntimos desejos. Para si mesmo, principalmente, porque eu não posso me desgrudar de mim. Felizmente.

As arquibancadas? Não foram doadas
O escurinho? Foi proporcionado pela noite nublada e cálida
E os espectadores?
Muitos passavam por ali e se depararam com o diferente
O novo sendo mostrado e apresentado de forma tão simples e contundente
Resvalou nos olhares presentes
O reflexo das cenas fictícias e delatoras
Da realidade exacerbada na mente de cada um
Alguns bancos foram tomados rapidamente
Todos se acomodaram para viajar na tela, não tão gigante, mas quem liga?
José diz que depois de 28 anos poderá dizer que foi ao cinema no próprio bairro
Na hora incerta, todos aceitam o convite para embarcar
E seguem admirados pela tecnologia e acontecimento
Palmas e mais palmas reverenciam a projeção de sonhos
A projeção de imagens nas quais se identificam muitas vezes
Em outras tantas, é possível ver balõezinhos saindo de suas cabeças
Minha nossa, as pessoas estão sonhando acordadas!
Quem foi que disse que era proibido sonhar?
Quem foi que disse que era pouco ou quase nada?
Quem foi que disse que não era possível?
Quem foi que disse?
Com certeza, não foram aqueles espectadores
Pois estavam inebriados pela luz
E comovidos por perceberem, de repente
Que a vida deles é só deles
E o filme também.
Serão os próximos a serem projetados nas telas
A contar suas histórias...
E olhares.