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domingo, 4 de janeiro de 2009

Gotas

Quem vem depois não sabe os traços que o guardou nos tempos passados no passado. Inspirado pela nuvem carregada não se atreve a sentir frio, apenas se entrega às vicissitudes do ser. Ouviu-se um barulho, algo ou alguém se arrastava molemente ao som de Doors. A abertura de Apocalipse Now ficou registrada em cada acorde e ângulo, não só visto mas também imaginado. Você escreve à mão regularmente? Eu nem tanto. Mas é tão bom... Me faz sentir vivo diante do tremeluzir da brisa despreocupada que invade o ambiente aqui sem pedir licença. A folha ainda está pela metade. A folha de papel, não a da árvore. A folha com a qual eu pensei em construir uma carta e uma casa; a carta foi, a casa ficou. O ritmo frenético também. Os dias passaram sem avisar que passariam. Rapidamente. O relâmpago. Os trovões seguidos do temporal e da dor na mão. A montanha, ou um agrupamento delas, se amontoa [claro!] diante de mim e mostra o seu mistério sensual escondido nas pedras. Formadas quando? Ontem, provavelmente. Mas eu sou atemporal. Sem tempo de discorrer sobre o que não é extremamente extremo e essencial. Dói muito. É preciso parar. Ejetar!

sábado, 27 de setembro de 2008

Êxtase

A malemolência faz com que o corpo não pare e se agite cada vez mais, sambando e quebrando ao ritmo do som que exercita os músculos, a pele e, principalmente, a mente. Um estado de êxtase tão grande que faz com que os suspiros sejam ouvidos por qualquer um e por todos.

Inquieto e feliz. É preciso aproveitar e sugar o momento até a última inspiração, pois não sei em qual momento estarei endiabrado novamente, fora de mim e de carne-e-osso em tudo. A energia é sentida até no vai-e-vem do balanço da praça, do sorriso de uma criança, do farfalhar de árvores magnifícas.

Olha a natureza de novo aí minha gente. Ela está em mim e eu estou nela. Acho que já falei isso antes, mas é que isto é muito enraizado em mim. Poderia passar horas admirando aquele arbusto ali, tá vendo?, e não me cansaria. Seria um misto de meditação e agradecimento por poder olhá-lo, senti-lo, entornar tudo aquilo como se fosse um saboroso copo de cerveja em dias quentes.

O canário cantou ao longe. Mas estava tão perto que nem percebi a distância. Mas a distância, muitas vezes, é inventada sabia? Sim, sim. Uma dia inventei que estava distante e me fechei em mim mesmo. Foi um fechamento gostoso, mas com toda essa intensidade que me devora é impossível não dar meia-volta e correr de braços abertos para a multidão de sorrisos.

Bom, mas deixa eu ir, porque a vida lá fora me aguarda ansiosamente. O coração palpita de felicidade. O dia está lindo. E ele é todo meu.

sábado, 20 de setembro de 2008

A desordem

Disse que estava ali, que veio apenas para designificar, dessintetizar, desintegrar, desordenar. Não havia sentido em nada, porque esta era a ordem da vida: a busca ininterrupta por ordenamento daquilo que nunca poderá ser arquivado em prateleiras empoeiradas e esquecidas para sempre.

No chão molhado pela chuva fina que caía naquela noite estrelada, o cheiro era agradável e tudo era convidativo para um novo reabrir de sonhos e desejos. Transportava-se de cabeça, corpo e alma para refúgios distantes do normal e corriqueiro, pressionava sua nuca contra a palma da mão esquerda e, dessa forma, sentia ela flutuar por lugares fulgurantes e de chamativos desígnios.

Você gosta disto porque é seu, é intrínseco. Está impregnado nos fios de cabelo rebelde e reabilitado com forças sobrenaturais e definitivas. O som não satisfazia, não soava bem aos ouvidos, mas ele tentava manter a tranqüilidade típica de um monge ensimesmado em seus hábitos levianos e levados pelos ardis do pecado inconfesso.

A princesinha entreabriu a janela e viu um resplandecente nascer do sol.

A primareva pedia passagem e explodia em cada poro das existências excêntricas e mal compreendidas.

Não será entendida nem decupada, muito menos filtrada em idéias retocadas e apresentadas como novidades nas vitrines de ambições deturpadas.