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domingo, 7 de março de 2010

O não da lembrança

Do que não foi. Do que não aconteceu. Daquilo que é tão meu quanto aquilo que se fez na luz. No breu, eu me perdi, e pensei, por um momento, que não acharia a saída deste labirinto. Mas eu continuo a querer o contato com o outro, com os outros, com você. Mesmo que não valha a pena num primeiro instante, sei que vou mudar de ideia no segundo. E por que a vida das pessoas parece mais interessante? É por que realmente é, ou por que eu não sei avaliar os meus próprios êxitos? Quando me sinto vazio, não quero que ninguém saiba. Até me esforço para demonstrar, mas não consigo. Me fecho. Me mostro apenas para mim mesmo quando olho no espelho e percebo aquele olhar cabisbaixo que me perseguia na época do colégio. Das coisas que não quis eu também sinto falta. Não sinto culpa. Durmo tranquilamente todas as noites. Tenho alguma certeza de que caminho no rumo certo. Tenho algo em mim que os outros não desvendam. Ou melhor, poucos conseguem. E volto a analisar a minha idade real, não a cronológica. Às vezes penso que já nasci velho. Que nasci despreparado para os relacionamentos. Que ainda não saí da estaca zero quando se trata de meter as caras e se entregar. E ainda por cima tento me refugiar nos problemas alheios, nas dores alheias, nas feridas alheias. Que espécie de sádico sou eu, que considera o sentimento do outro acima de todas as suspeitas? Aprender, aprender, aprender. Quando eu estacionar o carro das interrogações na calçada desbotada pelo tempo, já não serei mais eu, já terá morrido por dentro o homem que um dia sonhou ser grande. Grande na sua pequenez. Grande nos seus gestos mais humildes. Mas hoje acho que a vida está sendo bem menos injusta comigo do que ontem. Pelo menos. E eu gosto de escrever por aqui... mesmo que aqui onde estou as emoções não sejam as melhores agora. Mas elas se tornam boas a partir do momento que me impulsionam a traduzí-las, a decifrá-las. A me decifrar.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Dois copos de cerveja

Ao lado da garrafa de cerveja havia apenas um vazio. Um lugar vago que nunca antes foi ocupado. Então, como é que podia estar vago? O vazio só existe depois que um espaço foi preenchido por algo palpável ou não. Mas o fato é que ele queria dialogar com este vazio. Talvez assim a solidão fosse amainando aos poucos.

Você gosta de dançar? Sim. Você dança bem? Depende do ritmo. Do ritmo da vida? Não, dos acordes do violão mesmo. Mas se não tiver violão? Que seja de qualquer instrumento. Qual você prefere? A rabeca. O que é isso? Uma espécie de violino brasileiro. Bacana. É sim, bem bacana. Você sabe tocar? Não, mas ainda vou aprender. Quando? Em breve. Em breve quando? Quando eu construir uma e sair por aí tocando. Nossa, construir uma? Sim, construir uma nem custa tão caro assim. Como seria a vida sem música? Não haveria vida. Será? Tenho certeza, acredite nisso. Mas eu sou tão cético. Mas em algo você acredita, não? É, talvez. Tá vendo como você já começa a distinguir os contornos? Do quê? Do mundo. Que mundo? Do nosso, ora bolas. Nosso quem, cara pálida? Cara pálida não, eu sou negão. Me desculpe. Tá desculpado. O mundo é negro, sabia? Quem disse? Eu tô dizendo, acredite homem! A lua está tão linda. É verdade! O que deve estar acontecendo lá? Orgasmos múltiplos, é claro. Hã? Sim, o gozo de lá deve ser pleno para haver tanta beleza assim. E essas modelos magrelas ainda pensam que são belas, né? Mas o que é a beleza, meu caro? Não sei, só sei que é a melhor forma de ver o mundo: através das ínfimas belezas escondidas no óbvio ignorado por todos.

Ah, o óbvio.