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domingo, 7 de março de 2010
O não da lembrança
Do que não foi. Do que não aconteceu. Daquilo que é tão meu quanto aquilo que se fez na luz. No breu, eu me perdi, e pensei, por um momento, que não acharia a saída deste labirinto. Mas eu continuo a querer o contato com o outro, com os outros, com você. Mesmo que não valha a pena num primeiro instante, sei que vou mudar de ideia no segundo. E por que a vida das pessoas parece mais interessante? É por que realmente é, ou por que eu não sei avaliar os meus próprios êxitos? Quando me sinto vazio, não quero que ninguém saiba. Até me esforço para demonstrar, mas não consigo. Me fecho. Me mostro apenas para mim mesmo quando olho no espelho e percebo aquele olhar cabisbaixo que me perseguia na época do colégio. Das coisas que não quis eu também sinto falta. Não sinto culpa. Durmo tranquilamente todas as noites. Tenho alguma certeza de que caminho no rumo certo. Tenho algo em mim que os outros não desvendam. Ou melhor, poucos conseguem. E volto a analisar a minha idade real, não a cronológica. Às vezes penso que já nasci velho. Que nasci despreparado para os relacionamentos. Que ainda não saí da estaca zero quando se trata de meter as caras e se entregar. E ainda por cima tento me refugiar nos problemas alheios, nas dores alheias, nas feridas alheias. Que espécie de sádico sou eu, que considera o sentimento do outro acima de todas as suspeitas? Aprender, aprender, aprender. Quando eu estacionar o carro das interrogações na calçada desbotada pelo tempo, já não serei mais eu, já terá morrido por dentro o homem que um dia sonhou ser grande. Grande na sua pequenez. Grande nos seus gestos mais humildes. Mas hoje acho que a vida está sendo bem menos injusta comigo do que ontem. Pelo menos. E eu gosto de escrever por aqui... mesmo que aqui onde estou as emoções não sejam as melhores agora. Mas elas se tornam boas a partir do momento que me impulsionam a traduzí-las, a decifrá-las. A me decifrar.
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Um quase-seqüestro
A chuva chovia intensamente. Hoje, não naquele dia. No entanto, o dia naquele dia estava nublado. Pela manhã, a mãe saiu com seus três filhos em direção à escola. Na volta para casa já teria que cuidar de um monte de crianças. Era uma espécie de babá. Era o que fazia para sobreviver nesta grande cidade, depois de migrar de lá dos cafundós da Bahia. Porém, era feliz. Tinha quatro filhos lindos. Um tinha ficado em casa, pois ainda era muito pequeno para freqüentar a escola.
Uma inescrupulosa mulher que saltou de um carro tentou roubar sua felicidade. O garotinho estava bravo por algum motivo com sua querida mãe e apertou o passo para não andar junto dela. A vil mulher que parou o carro e caminhou em direção ao menino tinha um único objetivo: raptá-lo. Mas que maldade! Tamanha imbecilidade não deveria nunca ser perdoada.
Mas ela não contava com o instinto materno, que apitou desesperadamente naquele momento. A mãe, ao observar e prever o rapto de sua alegria, correu o mais depressa que pôde e agarrou sua cria. A infame mulher, que nunca deve ter tido a honra de ser mãe, voltou para o carro e foi embora para sempre. Ou pelo menos até encontrar uma outra oportunidade como essa.
O garotinho ficou como em estado de choque. No momento não entendeu muito bem o que lhe aconteceria. Mas depois a ficha foi caindo levemente e de forma contundente. Ele se arrependeu por seu temperamento forte e perdoou a mãe completamente. As lágrimas rolaram por dentro. A mãe, por sua vez, soltou muitas broncas e apontou o dedo para seu querido filho, enquanto o apertava nos braços, dando graças por ter evitado duramente que a roubassem a sangue frio.
A mamãe e o pequeno filho continuam felizes. Desde aquela época, não houve nenhuma outra tentativa de roubo. É claro que a família já passou por outros perrengues, mas aquela lembrança, como poucas, ficou marcada para sempre na memória desconexa e irregular do pequeno garotinho.
Ele agradece muito também por não ter tido a vida raptada de forma tão insuportável. Só não sabe muito bem a quem agradecer. Talvez a ele próprio, por ter sido abençoado [por alguma força disforme e gigante] e presenteado com uma mulher tão corajosa e ferina: a mãe que estava disposta a dar a vida por sua cria.
Uma inescrupulosa mulher que saltou de um carro tentou roubar sua felicidade. O garotinho estava bravo por algum motivo com sua querida mãe e apertou o passo para não andar junto dela. A vil mulher que parou o carro e caminhou em direção ao menino tinha um único objetivo: raptá-lo. Mas que maldade! Tamanha imbecilidade não deveria nunca ser perdoada.
Mas ela não contava com o instinto materno, que apitou desesperadamente naquele momento. A mãe, ao observar e prever o rapto de sua alegria, correu o mais depressa que pôde e agarrou sua cria. A infame mulher, que nunca deve ter tido a honra de ser mãe, voltou para o carro e foi embora para sempre. Ou pelo menos até encontrar uma outra oportunidade como essa.
O garotinho ficou como em estado de choque. No momento não entendeu muito bem o que lhe aconteceria. Mas depois a ficha foi caindo levemente e de forma contundente. Ele se arrependeu por seu temperamento forte e perdoou a mãe completamente. As lágrimas rolaram por dentro. A mãe, por sua vez, soltou muitas broncas e apontou o dedo para seu querido filho, enquanto o apertava nos braços, dando graças por ter evitado duramente que a roubassem a sangue frio.
A mamãe e o pequeno filho continuam felizes. Desde aquela época, não houve nenhuma outra tentativa de roubo. É claro que a família já passou por outros perrengues, mas aquela lembrança, como poucas, ficou marcada para sempre na memória desconexa e irregular do pequeno garotinho.
Ele agradece muito também por não ter tido a vida raptada de forma tão insuportável. Só não sabe muito bem a quem agradecer. Talvez a ele próprio, por ter sido abençoado [por alguma força disforme e gigante] e presenteado com uma mulher tão corajosa e ferina: a mãe que estava disposta a dar a vida por sua cria.
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