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quarta-feira, 24 de junho de 2009

Dia nublado

Sentir é tão complexo, mas tão complexo...
É complexo mesmo. De verdade. Não duvide. Não duvido.
E tão complexo quanto tirar um cochilo depois do almoço em uma grande cidade.
É preciso pegar na enxada. Não todos os dias... Ou sim. É urgente fugir da cidade. Fugir de vez em quando. Sabe por quê? Porque a cidade já está entranhada aqui. Mas será que é impossível? Imagina. É possível e necessário. Mas só em alguns momentos. Será que é este o momento? Talvez não. Acho que não. É bem possível que não. Porque a vida aqui não está de todo ruim. Não mesmo. O otimismo exacerbado talvez contribua para isso...
Talvez.
Otimismo perante a vida. Otimismo perante o outro. Otimismo perante o eu irregular e inconstante.
Enquanto espero a música, danço a vida com o jogo de cintura que me foi concedido.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Um quase-seqüestro

A chuva chovia intensamente. Hoje, não naquele dia. No entanto, o dia naquele dia estava nublado. Pela manhã, a mãe saiu com seus três filhos em direção à escola. Na volta para casa já teria que cuidar de um monte de crianças. Era uma espécie de babá. Era o que fazia para sobreviver nesta grande cidade, depois de migrar de lá dos cafundós da Bahia. Porém, era feliz. Tinha quatro filhos lindos. Um tinha ficado em casa, pois ainda era muito pequeno para freqüentar a escola.

Uma inescrupulosa mulher que saltou de um carro tentou roubar sua felicidade. O garotinho estava bravo por algum motivo com sua querida mãe e apertou o passo para não andar junto dela. A vil mulher que parou o carro e caminhou em direção ao menino tinha um único objetivo: raptá-lo. Mas que maldade! Tamanha imbecilidade não deveria nunca ser perdoada.

Mas ela não contava com o instinto materno, que apitou desesperadamente naquele momento. A mãe, ao observar e prever o rapto de sua alegria, correu o mais depressa que pôde e agarrou sua cria. A infame mulher, que nunca deve ter tido a honra de ser mãe, voltou para o carro e foi embora para sempre. Ou pelo menos até encontrar uma outra oportunidade como essa.

O garotinho ficou como em estado de choque. No momento não entendeu muito bem o que lhe aconteceria. Mas depois a ficha foi caindo levemente e de forma contundente. Ele se arrependeu por seu temperamento forte e perdoou a mãe completamente. As lágrimas rolaram por dentro. A mãe, por sua vez, soltou muitas broncas e apontou o dedo para seu querido filho, enquanto o apertava nos braços, dando graças por ter evitado duramente que a roubassem a sangue frio.

A mamãe e o pequeno filho continuam felizes. Desde aquela época, não houve nenhuma outra tentativa de roubo. É claro que a família já passou por outros perrengues, mas aquela lembrança, como poucas, ficou marcada para sempre na memória desconexa e irregular do pequeno garotinho.

Ele agradece muito também por não ter tido a vida raptada de forma tão insuportável. Só não sabe muito bem a quem agradecer. Talvez a ele próprio, por ter sido abençoado [por alguma força disforme e gigante] e presenteado com uma mulher tão corajosa e ferina: a mãe que estava disposta a dar a vida por sua cria.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O apático

Apatia e olhar para dentro. Hoje é um dia daqueles em que viver dói como uma unha encravada no dedão do pé esquerdo. Sinto tudo tão frágil aqui pelo interior da minha alma. Almejando um novo sol com chuva, fiquei ali parado, a contemplar a maravilha da natureza, a beleza da vida, a latejante forma de estar presente no mundo. Contraditório não? Pois não. É sim. É não. É o distante instante introduzido no amor perdido e calado. É tão bom escrever nesses dias cinzentos e amarelados. Se saco vazio não pára em pé porque as pessoas ainda insistem em acreditar num deus que virá para purificar essa Terra descabida em si mesma? Talvez a revolta seja intrínseca à minha existência frágil. Frágil, porém revoltada. Continua deflagrando sentimentos que vetam soluções anunciadas como presente de grego. Essa ação, de retorno do olhar agudo para dentro de si mesmo, não é para qualquer um. Não, não sou um herói. Apenas um reles e rotativo mortal tentando descobrir a essência da vida. Não quero passar por ela, sem investigá-la a fundo, sem visitar os seus mais recônditos espaços reservados à euforia desabalada de viver. Emoção. Olhos lacrimejantes. A sensibilidade é tão boa, mas ao mesmo tempo é tão pesada. Carrego o seu peso nos meus olhos redondos [sim, achei eles tão belos hoje de manhã], que disfarça a cada momento a rebeldia entranhada na íris castanha. Carrego o silêncio e a dor, duas inquestionáveis bandeiras indistintas da trilha descomposta no parque verdejante e florido na primavera da década atual. O tempo desregrado e intempestuoso me inundou de tal maneira que estou lotado de mim mesmo. Tão cheio que quase não me aguento. Muito complexo?

Já me desdobrei e me transformei em outro.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Tédio e meditação

Aquele parece este dia em que tudo denota um marasmo tão tranqüilo e entediado que até o relógio se contorce de pavor das horas e do percorrer dos ponteiros, mesmo que eles existam apenas imaginariamente. Que saudade da presença física dos pobres ponteiros, que deixava mais clara a urgência das ações e o corre-corre de corpos se debatendo entre si nas ruas infestadas de piolhos e pestes. Eles estão nos lugares menos óbvios.

Despertou do sono dos justos e abriu os olhos para um dia ainda nublado e horripilantemente feio. Sua vontade era de voltar para a cama quentinha e aconchegante. Mas batiam lá fora na janela de forma insistente e insolente. Era a vida cobrando ação e mostrando que mesmo nos dias nublados é preciso levantar e ir debater-se nos cruzamentos empilhados de gente. Uma pessoa estava e andava em cima da outra porque não havia mais espaço. A Terra já era pequena e a viagem para outros planetas ainda não era acessível para todos.

Com os olhos lacrimejando de sono e cansaço, já não podia mais prestar atenção ao essencial do que pulava aqui e ali à sua frente e pedia clemência para que o deixassem em paz com sua melancolia. Queria meditar, meditar, meditar até o seu cérebro começar a ferver por dentro e fazer uma grande fogueira de São João. Mas já passou! E daí? Façamos outras festas, inventemos mais uma, afinal de contas a vida é uma festa e a festa representa a vida insaciável que há dentro de nós.

Tenho medo da auto-ajuda, das palavras de consolo, dos bons conselhos, dos falsos amigos, da maré cheia, do fogo abrasador do sol, do esplendor magnífico da natureza. Tudo isso porque sou só e pequeno, pequeno e despido de mim mesmo diante de julgamentos pérfidos e nojentos. A julgar pelos próprios julgadores o resultado do julgamento não poderia ser outro, mas apenas um só, dentre tantos outros sóis: foram condenados a trabalhos forçados até que conseguissem não apontar o dedo imundo para corações tão puros e leais à essência instalada ali desde os anos mais longínquos.

Falar é difícil, mais complicado ainda é ouvir. Nem todos têm esse dom, essa habilidade, esse arroubo de realização do imprevisto. Não é privilégio, é apenas sucesso daqueles que se propuseram a vencer barreiras que pareciam intransponíveis e puderam ver o mundo de outro ângulo, criando seu próprio panorama, se inserindo de uma vez por todas nesse universo abalável e inacabado de estações passageiras e sentimentos etéreos e eternos.