O cansaço toma conta e oprime cada vez mais aquele corpinho raquítico e frágil na existência avassaladora do dia-a-dia impiedoso. Não perdoa, não releva, o tempo passa cada vez mais veloz. E eu fico aqui sem saber como administrá-lo, como multiplicá-lo, desprezá-lo. Salvando um resto de sabor e aroma de melancia adocicado e cheio de permissividade. Eu quero.
Cartões foram jogados ao alto e as pulseiras de metal foram presas aos pulsos daqueles que se submetiam ao grotesco e grosseiro. Agora já não faz mais sentido nem vale a pena, terminou e não disse para onde ia, não houve rastros em seu caminho, não houve pistas que indicassem o seu paradeiro. Sempre foi confuso e perdido, mas não contava com aquela descoberta da trilha para o fim do mundo. Não. Era depois ainda do fim do mundo. Mas conseguimos chegar lá. É como se os tivessem jogado naquele mundaréu de descaso e fossem esquecidos à própria sorte, que pouquíssimas vezes bateu em sua porta.
Encancarou-a e meteu-se a besta. Não foi necessário nenhuma cerimônia. Foi entrando, se apresentando, se mostrando, se fazendo. Mas com uma humildade controversa ficou feliz de sentir um clima simpático e fresco. Era bem-vindo. Era querido e bem-vindo naquele lugar. Não se cansou de exclamar que gostaria de pertencer para todo o sempre a si mesmo e a todos. A todos os lugares onde pudesse encontrar o delírio das paixões que transcendem a compreensão desumana.
E por lá não ficou e foi descobrir o mundo. Tentar mudá-lo, talvez. Estava cansado naquela noite, mas jurou a si mesmo que não abandonaria a convicção de que aprenderia cada vez mais com os regalos da vida e as promessas soltas pelos corações desabrigados e maltratados. Havia sido encontrado, o que contribuiu para diminuir um pouco o desespero. Amanhã ele estará cada vez mais distante. Ele mesmo me segredou. Confie em mim.
domingo, 7 de setembro de 2008
sábado, 6 de setembro de 2008
Amontoado de diferenças
Parecia não pertencer ao lugar que tinha leis, mas não eram declaradas. O furacão passou e quis saber o que ocorria por aquelas bandas dali, não compreendia por que todos ainda insistiam em permanecer ali, mesmo correndo todos os perigos, as criminosas atitudes de seres rastejantes pela madrugada adentro que não sossegam de gemer fortemente, como se se apegassem ao mais alto tom da indiscreta falibilidade.
Os objetos pareciam estar fora do espaço a que pertenciam anteriormente. A intolerância animalesca, mas somente humana, fez de seus vis corações sementes impregnadas de branquitude exalada na fumaça do cigarro que incomoda inflexivelmente. O fuminho não se conteve e se espalhou.
Já ia pegar a caneta, sua arma, mas não teve tempo de rabiscar nada. Não era o momento... a viagem estava próxima, já estavam apertando os cintos. A velocidade ia a tal extremo que a força do vento fazia a expressão do seu rosto parecer um amontoado de olhos, bocas, narizes, espinhas, manchas e rugas. Na testa tinha um indescritível sinal de tédio. Estava estampado como uma placa, mas não conseguia enxergar no reflexo do espelho.
A porta do boteco está aberta, não se fecha quase nunca. É para lá que vão as almas da esquina da rua sem saída do outro lado da cidade. Reza a lenda que ficam por ali a inalar o sabor da displicência e falta de regras, de pré-condições. Se revezam para não ter medo de se ocupar do mesmo itinerário na busca pela perfeição de seus defeitos. Os passos já não condizem com o modo de se mostrar, uma perna parece maior que a outra, o caminhar desajeita a maneira de se portar, de seguir mirando a estrada à frente, símbolo da reflexão e das diferenças.
Não chega, está longe. Lá na linha horizontal que persegue e afugenta os mais ínfimos detalhes incrustados na mais tenra alegria que não se cansa de reviver em momentos de apogeu, alento, loucura. É o início. E talvez o fim.
Os objetos pareciam estar fora do espaço a que pertenciam anteriormente. A intolerância animalesca, mas somente humana, fez de seus vis corações sementes impregnadas de branquitude exalada na fumaça do cigarro que incomoda inflexivelmente. O fuminho não se conteve e se espalhou.
Já ia pegar a caneta, sua arma, mas não teve tempo de rabiscar nada. Não era o momento... a viagem estava próxima, já estavam apertando os cintos. A velocidade ia a tal extremo que a força do vento fazia a expressão do seu rosto parecer um amontoado de olhos, bocas, narizes, espinhas, manchas e rugas. Na testa tinha um indescritível sinal de tédio. Estava estampado como uma placa, mas não conseguia enxergar no reflexo do espelho.
A porta do boteco está aberta, não se fecha quase nunca. É para lá que vão as almas da esquina da rua sem saída do outro lado da cidade. Reza a lenda que ficam por ali a inalar o sabor da displicência e falta de regras, de pré-condições. Se revezam para não ter medo de se ocupar do mesmo itinerário na busca pela perfeição de seus defeitos. Os passos já não condizem com o modo de se mostrar, uma perna parece maior que a outra, o caminhar desajeita a maneira de se portar, de seguir mirando a estrada à frente, símbolo da reflexão e das diferenças.
Não chega, está longe. Lá na linha horizontal que persegue e afugenta os mais ínfimos detalhes incrustados na mais tenra alegria que não se cansa de reviver em momentos de apogeu, alento, loucura. É o início. E talvez o fim.
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sexta-feira, 5 de setembro de 2008
Roçando três mudas de vento
Roçar e deslizar sua perna no desconhecido faz parte de um momento mágico e contraditório. Você não conhece, mas está ali. Aparentemente não difere em muita coisa de sua estatura baixa e morosa, mas sem indagações e interceptações percebe que é igual, que é você travestido de outra roupagem, inovadora e deslocada de sua couraça original.
Tentam balançar de um lado e de outro, mas me mantenho teso e resoluto diante das peripécias [sempre gostei desta palavra] que me apresentam e se transformam quando chegam a mim. Tomo posse, são minhas e de mais ninguém. É o meu livro de histórias mal contadas, mal iniciadas, mal rabiscadas, mas contundentes naquilo que fortalece cada vez mais a abdicação de velhos valores e novas morais. E a vergonha acabou-se por completo, para todo o sempre até que alguém a mude de lugar e a transforme no estandarte dos bons costumes que oprimem e regulamentam um espaço reservado ao caos e à anarquia.
Um sinal obsceno de uma revigorante e desmiolada senhorinha que perambula pelas esquinas de tráfego misturado com tráfico, que reverbera nos ossos daqueles que foram enterrados e se contorcem para voltar à tona, poder respirar e gritar impropérios inimagináveis diante da vossa excelência sagrada e pura. Pureza entremeada de guerras infames e extrovertidas, que gargalham na cara do perigo de se perder e perder o medo do inigualável teorema formulado por malucos de todo o mundo, de todas as eras.
Um vestido balança no varal ao sabor da ventania que ofusca com suas pedrinhas e pequenos ciscos imperceptíveis no ar impuro e levemente morno. O crepúsculo toma a varandinha da pequena moradia construída com palhas, madeiras, pregos, rumores, ganas, avarezas, solidariedade, samba do crioulo doido, mutirão. O doido corre segurando suas calças, e naquela cena engraçada não se inibe de continuar a correr desenfreadamente. De repente, rouba o vestido florido que estava no varal e o veste todo desajeitado. Que doido!
Mas não parou de pensar que se deseja o que quer já não se permite mais querer, e se não quer o que lhe é sugerido, estupora-se e se debate como um epilético, sem nem imaginar que os tremeliques do seu corpo representam apenas a falta de sensação obstinada que o aflige repentinamente sempre pela manhã dos dias, que sempre parecem enevoados e nublados, aquele tempo que o faz ficar ‘down’. Que down o quê ô! Down é o critério com o qual analisa a si mesmo. Fechou o vidro da janela e saiu para curtir a vida que se contorcia lá fora.
Tentam balançar de um lado e de outro, mas me mantenho teso e resoluto diante das peripécias [sempre gostei desta palavra] que me apresentam e se transformam quando chegam a mim. Tomo posse, são minhas e de mais ninguém. É o meu livro de histórias mal contadas, mal iniciadas, mal rabiscadas, mas contundentes naquilo que fortalece cada vez mais a abdicação de velhos valores e novas morais. E a vergonha acabou-se por completo, para todo o sempre até que alguém a mude de lugar e a transforme no estandarte dos bons costumes que oprimem e regulamentam um espaço reservado ao caos e à anarquia.
Um sinal obsceno de uma revigorante e desmiolada senhorinha que perambula pelas esquinas de tráfego misturado com tráfico, que reverbera nos ossos daqueles que foram enterrados e se contorcem para voltar à tona, poder respirar e gritar impropérios inimagináveis diante da vossa excelência sagrada e pura. Pureza entremeada de guerras infames e extrovertidas, que gargalham na cara do perigo de se perder e perder o medo do inigualável teorema formulado por malucos de todo o mundo, de todas as eras.
Um vestido balança no varal ao sabor da ventania que ofusca com suas pedrinhas e pequenos ciscos imperceptíveis no ar impuro e levemente morno. O crepúsculo toma a varandinha da pequena moradia construída com palhas, madeiras, pregos, rumores, ganas, avarezas, solidariedade, samba do crioulo doido, mutirão. O doido corre segurando suas calças, e naquela cena engraçada não se inibe de continuar a correr desenfreadamente. De repente, rouba o vestido florido que estava no varal e o veste todo desajeitado. Que doido!
Mas não parou de pensar que se deseja o que quer já não se permite mais querer, e se não quer o que lhe é sugerido, estupora-se e se debate como um epilético, sem nem imaginar que os tremeliques do seu corpo representam apenas a falta de sensação obstinada que o aflige repentinamente sempre pela manhã dos dias, que sempre parecem enevoados e nublados, aquele tempo que o faz ficar ‘down’. Que down o quê ô! Down é o critério com o qual analisa a si mesmo. Fechou o vidro da janela e saiu para curtir a vida que se contorcia lá fora.
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quinta-feira, 4 de setembro de 2008
Memórias de uma bicicleta
Fui tomado de um acesso de bom humor tremendo, que desconfio tenha surgido de algum lugar aqui na consciência do garotinho que ainda habita esse corpo que insiste em envelhecer a cada dia, questionando os rumos dos tempos e das horas. Quem os criou? Eu próprio, junto com todos os outros. Mas para onde levá-lo não sei. Só sei que o levo sem pensar, sem notar que ele está ali. Uma vez li em algum livro do Érico Veríssimo que o tempo só existe se dermos atenção para ele. Caso contrário, ele ficará ali apenas para mexer os ponteirinhos do relógio, tiquetaqueando ensurdecedoramente.
Ela era uma criancinha linda, parecia uma boneca de porcelana com seus cabelos cacheados e sua tez branquinha branquinha, bochechas [e que bochechas!] rosadas como as de uma pequena alemã, ou como aquelas mulheres que passam um tal pozinho para denotar saúde. O que importa é que ela ganhou uma bicicleta de presente e ainda não sabia andar. No começo passeava pelas ruas ao redor de sua simples casinha [bem parecida com aquelas que desenhamos na escola]. Empurrava seu tesouro como se aquilo fizesse ela pertencer a este mundo. Como num estalo, teve certeza. Era possuída por este universo assim como o possuía com toda a sua força de criança inocente.
Mas não se arriscava a montar na bicicleta e tomar o primeiro tombo, necessário e inevitável. Ela sabia disso, mas ainda assim se negava a ralar seus lindos joelhinhos. Sempre pela manhã todos que passavam, observavam aquela cena e pensavam, às vezes, que tivesse saído de um conto de fadas. Seus cachos castanhos pareciam refletir toda a bondade e impetuosidade existente naquele pequeno ser, cheio de vida e desengonçado de meiguices. Era até motivo de riso de outras crianças maldosas que passavam a toda velocidade com suas bicicletas reluzentes. Mas nem ligava; para ela tudo era um processo em sua vida e deveria passar por ele com toda a dignidade possível. Mas não me pergunte como ela sabia de tudo isso não tendo completado nem os cinco anos de idade.
E seguia a empurrar, como empurramos o carrinho de compras no supermercado ou o de bebê num passeio pelo bosque. Empurrava com afinco e tinha certeza que não poderia passar a vida inteira a empurrar, que decisões seriam cobradas dela a cada instante, à medida que o tempo [olha ele de novo!] passasse. E sua resolução não poderia ter sido outra: encostou a bicicleta na parede frontal de sua casa e subiu no banco. Mesmo com as pernas trêmulas e temendo se machucar muito, deu um impulso e conseguiu percorrer alguns poucos metros, o que para ela pareceu um grande trajeto. Naquele momento era a personificação da confiança, mas em seguida caiu em meio ao cascalho que havia na frente de sua casa.
O inevitável ocorreu: ralou um pouco os joelhos e as mãos. Porém, teve certeza de que deu um passo gigante em sua vida. O primeiro teste de muitos que viriam pela frente. E até hoje se pergunta por que não aprendeu a andar de bicicleta antes. Seu sábio pai esboça uma resposta: "tudo ao seu tempo, minha filha", diz com um olhar peralta, que a fez lembrar a infância ainda presente dentro dela.
Ela era uma criancinha linda, parecia uma boneca de porcelana com seus cabelos cacheados e sua tez branquinha branquinha, bochechas [e que bochechas!] rosadas como as de uma pequena alemã, ou como aquelas mulheres que passam um tal pozinho para denotar saúde. O que importa é que ela ganhou uma bicicleta de presente e ainda não sabia andar. No começo passeava pelas ruas ao redor de sua simples casinha [bem parecida com aquelas que desenhamos na escola]. Empurrava seu tesouro como se aquilo fizesse ela pertencer a este mundo. Como num estalo, teve certeza. Era possuída por este universo assim como o possuía com toda a sua força de criança inocente.
Mas não se arriscava a montar na bicicleta e tomar o primeiro tombo, necessário e inevitável. Ela sabia disso, mas ainda assim se negava a ralar seus lindos joelhinhos. Sempre pela manhã todos que passavam, observavam aquela cena e pensavam, às vezes, que tivesse saído de um conto de fadas. Seus cachos castanhos pareciam refletir toda a bondade e impetuosidade existente naquele pequeno ser, cheio de vida e desengonçado de meiguices. Era até motivo de riso de outras crianças maldosas que passavam a toda velocidade com suas bicicletas reluzentes. Mas nem ligava; para ela tudo era um processo em sua vida e deveria passar por ele com toda a dignidade possível. Mas não me pergunte como ela sabia de tudo isso não tendo completado nem os cinco anos de idade.
E seguia a empurrar, como empurramos o carrinho de compras no supermercado ou o de bebê num passeio pelo bosque. Empurrava com afinco e tinha certeza que não poderia passar a vida inteira a empurrar, que decisões seriam cobradas dela a cada instante, à medida que o tempo [olha ele de novo!] passasse. E sua resolução não poderia ter sido outra: encostou a bicicleta na parede frontal de sua casa e subiu no banco. Mesmo com as pernas trêmulas e temendo se machucar muito, deu um impulso e conseguiu percorrer alguns poucos metros, o que para ela pareceu um grande trajeto. Naquele momento era a personificação da confiança, mas em seguida caiu em meio ao cascalho que havia na frente de sua casa.
O inevitável ocorreu: ralou um pouco os joelhos e as mãos. Porém, teve certeza de que deu um passo gigante em sua vida. O primeiro teste de muitos que viriam pela frente. E até hoje se pergunta por que não aprendeu a andar de bicicleta antes. Seu sábio pai esboça uma resposta: "tudo ao seu tempo, minha filha", diz com um olhar peralta, que a fez lembrar a infância ainda presente dentro dela.
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Surpreendido pelo mendigo
Descendo uma rua vejo um mendigo agachado encostado num poste. Me aproximo e fixo seus olhos lacrimosos onde o sol batia fortemente, apesar de não ser o sol do meio dia e estar se preparando já para se pôr. Eis que manda um beijo, sincero e humilde, e diz: "Vai com Deus". De tão inesperado não tenho tempo de esboçar uma reação à altura, apenas um leve sorriso não tão natural como foi o dele.
Fico espantado como muitas vezes a beleza pode ser encontrada nos recantos mais esquecidos e reservados aos olhares apressados e tornados cegos por isso mesmo. Mas é preciso abrir as sensibilidades aos acasos que nos esperam abobalhados e cheios de sede de notabilidade. Ele ficou lá. Eu fiquei aqui. Mas levei um pedacinho da cena e deixei um meio-sorriso de presente, ou alguma outra impressão que tenha ficado por ali, naquele poste, calçada, tropeços.
Meus dedos não titubearam em tamborilar algumas notas desconexas e cheias de poesia enaltecida dentro de mim por ações que não puderam mais se conter e ser contidas atrás da jaula da insensatez. Sigo no sentido horizontal, mas o vertical se apresenta constantemente em meus pesadelos dissimuladamente benéficos à minha expressão desavergonhada de sardas embutidas em outros tempos, em outras vidas.
Histórias, há muitas. Saídas, igualmente. Prisões, também. Está bem, a fuga do corriqueiro é o andarilho que sobe no pau-de-sebo e não se cansa de almejar seu prêmio que só conseguirá se chegar até o mais alto, onde o céu, o vento e a lua se aproximam e o revigora de forças para que prossiga derrapando e persistindo no objetivo de subir, subir e não ter medo de descer. A altura é gigante. Mais gigante ainda é a certeza de que não há certeza de nada, e nada sempre existe para ser preenchida de tudo quanto se pode achar que estava perdido.
No surpreendente caminho, parou, sentou em uma pedra e refletiu. Poderia ser ele, naquela mesma posição, em igual estado, com o mesmo humor, coração, sagacidade, complacência. Mandaria ou não o beijo? Diria ou não palavras de amizade? A voz poderia sumir, mas também poderia explanar sobre assuntos incompreensíveis para almas que não se atrevem a voar...
Fico espantado como muitas vezes a beleza pode ser encontrada nos recantos mais esquecidos e reservados aos olhares apressados e tornados cegos por isso mesmo. Mas é preciso abrir as sensibilidades aos acasos que nos esperam abobalhados e cheios de sede de notabilidade. Ele ficou lá. Eu fiquei aqui. Mas levei um pedacinho da cena e deixei um meio-sorriso de presente, ou alguma outra impressão que tenha ficado por ali, naquele poste, calçada, tropeços.
Meus dedos não titubearam em tamborilar algumas notas desconexas e cheias de poesia enaltecida dentro de mim por ações que não puderam mais se conter e ser contidas atrás da jaula da insensatez. Sigo no sentido horizontal, mas o vertical se apresenta constantemente em meus pesadelos dissimuladamente benéficos à minha expressão desavergonhada de sardas embutidas em outros tempos, em outras vidas.
Histórias, há muitas. Saídas, igualmente. Prisões, também. Está bem, a fuga do corriqueiro é o andarilho que sobe no pau-de-sebo e não se cansa de almejar seu prêmio que só conseguirá se chegar até o mais alto, onde o céu, o vento e a lua se aproximam e o revigora de forças para que prossiga derrapando e persistindo no objetivo de subir, subir e não ter medo de descer. A altura é gigante. Mais gigante ainda é a certeza de que não há certeza de nada, e nada sempre existe para ser preenchida de tudo quanto se pode achar que estava perdido.
No surpreendente caminho, parou, sentou em uma pedra e refletiu. Poderia ser ele, naquela mesma posição, em igual estado, com o mesmo humor, coração, sagacidade, complacência. Mandaria ou não o beijo? Diria ou não palavras de amizade? A voz poderia sumir, mas também poderia explanar sobre assuntos incompreensíveis para almas que não se atrevem a voar...
terça-feira, 2 de setembro de 2008
Bolinhos de chuva do mar
Quero apenas dar um pontapé na brisa marítima que cobre de arrepios as nêsperas do deserto habitado por criaturas insalubres e descontentes ao sabor de seu azar. No dia de São Longuinho vão comemorar o achado daquela preciosidade embutida no pé de laranja-lima. Nunca tinha visto um ipê. Que amarelo impactante e delicado. Também não havia tucanos em sua terra, pensava que eles habitavam apenas o zoológico perto de sua casa. O tucano comeu comeu comeu e ainda assim não saciou sua sede de corpos navegantes pelos extremos da crosta terrestre. A Terra. Da janela vislumbro timidamente uma estátua com auréola de anjo [tem auréola de outra coisa?] e iluminada pelo sol refrescante daquela tarde de inverno. Torrando ali diariamente. Ela estava parada [sim, não se mexia de modo algum!] no alto de alguma igrejinha com paredes e ornamentos desbotados e tomados pela ação impiedosa e nada vulgar do tempo. Que não tinha cabimento nenhum, ela sabia, e tinha plena consciência disso, mas sua resolução não foi a esperada pelos demais simplórios que viviam em palacetes de hipocrisias e mentiras disfarçadas de luzes ofuscantes e cheias de beleza estonteante. Dizia que no seu entender o mundo não passa de uma pequena constelação de estrelas. Mas e essa imensidão de mares e terras? São menos do que o menor dos seres inanimadamente vivos que figuram no universo. Figuras montadas ao bel-prazer do criador de causos e crendices. Lembrei do fogão à lenha da minha avó, com suas labaredas que eram incitadas a cada instante para cozinhar o alimento do dia. Eu fui buscar a lenha e a plantei aos pés de Rosa Rosalina e ela abriu um sorriso de agradecimento. Seus netinhos não ficarão ao léu naquele fim de tarde. Irá preparar mais um saboroso arroz doce. Hummmm. Já sinto o aroma que minha memória não esquece nunca. 'Dindinha, faz bolinho de chuva também?'
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segunda-feira, 1 de setembro de 2008
A coisa é agora!
Duas criancinhas brincando no escorregador do parquinho da pequena praça, pela manhã, quando o sol ainda nascia e espantava para longe o friozinho que gelava até os ossos. Malabarismos com pernas e pés e eis que a porta se abre, ninguém tropeça nem cai e todos seguem desabalando tudo ao redor.
Não quer permitir que o desespero e o labirinto com múltiplas saídas se apresentem como uma muralha a ser engolida. Não, ela será transposta e ainda há de rir na cara dela. É isso. Rir é preciso para não perder as estribeiras. Respire e siga.
Às vezes penso que gostaria de ser uma árvore onde o casal de apaixonados risca as iniciais do nome, dele e dela, dela e dela, dele e dele, deles e deles, delas e delas. Mas tudo é tão insanamente desavisado que me altera o estado natural de estar.
Um dia, as criancinhas fizeram a maior bagunça em casa porque foram deixadas sozinhas; peraltas e espertas como só elas sabem ser, pegaram garrafas de óleo de cozinha no armário e saíram espalhando seu líquido pelo chão, paredes, objetos, camas, travesseiros, tudo o que viam pela frente. Era uma espécie de brincadeira, não era maldade não; como se divertiram naquele dia. A mãe que não achou nada engraçado, mas é que os adultos desaprendem a rir rápido demais. Um escarcéu só.
Agora ela está mancando [não a mãe, nem as criancinhas, já falo de outro ser], porém espera e continua a caminhar acreditando que logo estará restabelecida e novinha em folha. Depois de amanhã, só. Mas o hoje é urgente e pra anteontem. Passado. Já foi o próximo... Salve a natureza, pois a coisa é agora!
Não quer permitir que o desespero e o labirinto com múltiplas saídas se apresentem como uma muralha a ser engolida. Não, ela será transposta e ainda há de rir na cara dela. É isso. Rir é preciso para não perder as estribeiras. Respire e siga.
Às vezes penso que gostaria de ser uma árvore onde o casal de apaixonados risca as iniciais do nome, dele e dela, dela e dela, dele e dele, deles e deles, delas e delas. Mas tudo é tão insanamente desavisado que me altera o estado natural de estar.
Um dia, as criancinhas fizeram a maior bagunça em casa porque foram deixadas sozinhas; peraltas e espertas como só elas sabem ser, pegaram garrafas de óleo de cozinha no armário e saíram espalhando seu líquido pelo chão, paredes, objetos, camas, travesseiros, tudo o que viam pela frente. Era uma espécie de brincadeira, não era maldade não; como se divertiram naquele dia. A mãe que não achou nada engraçado, mas é que os adultos desaprendem a rir rápido demais. Um escarcéu só.
Agora ela está mancando [não a mãe, nem as criancinhas, já falo de outro ser], porém espera e continua a caminhar acreditando que logo estará restabelecida e novinha em folha. Depois de amanhã, só. Mas o hoje é urgente e pra anteontem. Passado. Já foi o próximo... Salve a natureza, pois a coisa é agora!
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