quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Mais uma fantasia

Parece mentira, mas é tão real quanto às percepções construídas em relação ao mundo externo e controverso. O fato é que eu mergulho em mais uma de minhas fantasias, gostosas e enganosas, cheias de expectativas e medos. Medo do incerto e da decepção.

Mas para quê que se vive? Para ficar se escondendo num monte de receios e não-me-toques?

Não! Eu quero a vida, mesmo com todo os seus tapas e cuspidas. Pode cuspir e debochar. O meu deboche será ainda maior, em cada levantar e prosseguir viagem. Só assim poderei sentir dever cumprido para alcançar não sei o quê, não sei para quê. Só sei que é preciso alcançar e que nunca saberemos o que é buscado, o que está no fim da outra ponta do arco-íris.

Plint. Splot. Desliga. Dorme.

Só não ronque.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Impetuoso

Nomes são chamados e as pessoas se apresentam uma a uma em frente à velha prisão na parte baixa da cidade habitada por zumbis. O cenário é desolador: o sol não aparece há dias, o poder é disputado pelas mais vis criaturas e a comida é racionada. O mundo acabou e eles não se deram conta.

O ímpeto impune continuou a fazer parte de sua constituição física e psicológica. Andava pelas ruas com uma segurança que era só dele, de um jeito todo particular e destemido. Toda essa confiança só foi conseguida depois de muito relutar diante de seus próprios medos e angústias. A aflição era tão grande que quase o levou pelos ares no dia do nascimento daquela nova arma à prova de vidas.

Querem interferir nas minhas lindas palavras, na minha forma de usá-las, de articular uma com a outra ou de não articular nada. Um A pode não ser mais um A e um É de repente pode se transformar num solitário E, despossuído de seu intenso acento que lhe dava força e legitimidade. Mas não liga não, eles não passam de uns ignorantes. Força!

De toda forma, a incidência do sol em sua pele continuou a alimentá-lo por dias a fio, incansável. Era sobre-humano. No entanto, sabia muito bem que continuava a ser tão homem quanto o desafeto sentido no momento de uma desilusão amorosa.

É fogo não perceber que a água pode cobrir e purificar até as coisas que já estão puras. Mesmo que elas sejam pura imundície, no íntimo são compostas pela limpeza e inocência características de um ser ambulante-contraditório-mutante-humano.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Em outra galáxia

Pareço com uma parede branca e intocada à espera da pintura e de todas as figuras que serão desenhadas e imaginadas. As crianças ainda não chegaram com toda a sua peraltice sujando e brincando com os desenhos de suas mãos. Mas elas foram encomendadas, sinto isso. Um dia, elas ainda vão entrar por aquela porta ali, correndo e sorrindo de felicidade.

Hoje – voltando ao hoje – não estou em nenhum lugar, nem em mim mesmo. A sensação é de que acordei em outra galáxia recheada de promessas para o presente sem nostalgia do passado. Este novo mundo é tão quente e aconchegante que o sonho parece querer durar só mais um pouquinho, sem tempo nem obrigações urgentes.

De qualquer forma, o caminhar demonstrava que não havia direção certa, que o certo e o errado é uma construção temporal e autoritária, que nem percebemos conscientemente o que nos leva a realizar algumas ações ou deixar de fazer aquilo que sentimos vontade. Pois eu quero todas as vontades e desejos e que a bomba atômica seja jogada no monte de pecados inventados e levados a sério por meio de doutrinas vãs.

É fato que o fato foi expulso de forma agressiva e feroz e jogado a quilômetros de distância dos velhos valores que valeram por vários séculos saciados pelo preço da vingança levada à forra com vigor e maestria de um varão perpetuado por suas características caricatas e disponíveis de forma fatal nos olhos lançados e esperneados entre pés prostrados por terra terrificada por titubeantes tremores.

domingo, 28 de setembro de 2008

Cabeça pesada

Os discursos são falácias e blá-blá-blás que não são digeridos, ficam lá e são usados para enganar os próprios oradores, pobres criaturas doentes e dementes. A cabeça já não processa aqueles dizeres empolados e mentirosos. Mentirosos!

Mas as festividades com pão e circo continuam firmes e fortes. A novela sagrada de todos os dias ameniza a dor de viver num país sem eira nem beira, mas com muitos fundos falsos cheios do rico dinheiro roubado descaradamente. Cruel. Abominável.

Mudando de assunto.

Sentir felicidade é como estar flutuando em pensamentos encorajados pela brisa da tarde despreocupada, cujo pano de fundo é o estonteante pôr-do-sol.

Como saber que a fragrância pertence à alma escolhida para ser cultivada por todo o caminho torto que é a vida?

Sabendo. Existem coisas inexplicáveis que nem a própria coisa consegue desenhar no quadro negro e deixar claro aquilo que antes era inebriado de trevas.

sábado, 27 de setembro de 2008

Êxtase

A malemolência faz com que o corpo não pare e se agite cada vez mais, sambando e quebrando ao ritmo do som que exercita os músculos, a pele e, principalmente, a mente. Um estado de êxtase tão grande que faz com que os suspiros sejam ouvidos por qualquer um e por todos.

Inquieto e feliz. É preciso aproveitar e sugar o momento até a última inspiração, pois não sei em qual momento estarei endiabrado novamente, fora de mim e de carne-e-osso em tudo. A energia é sentida até no vai-e-vem do balanço da praça, do sorriso de uma criança, do farfalhar de árvores magnifícas.

Olha a natureza de novo aí minha gente. Ela está em mim e eu estou nela. Acho que já falei isso antes, mas é que isto é muito enraizado em mim. Poderia passar horas admirando aquele arbusto ali, tá vendo?, e não me cansaria. Seria um misto de meditação e agradecimento por poder olhá-lo, senti-lo, entornar tudo aquilo como se fosse um saboroso copo de cerveja em dias quentes.

O canário cantou ao longe. Mas estava tão perto que nem percebi a distância. Mas a distância, muitas vezes, é inventada sabia? Sim, sim. Uma dia inventei que estava distante e me fechei em mim mesmo. Foi um fechamento gostoso, mas com toda essa intensidade que me devora é impossível não dar meia-volta e correr de braços abertos para a multidão de sorrisos.

Bom, mas deixa eu ir, porque a vida lá fora me aguarda ansiosamente. O coração palpita de felicidade. O dia está lindo. E ele é todo meu.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Solidão

Por que só aquilo que a gente não possui faz tanta falta e traz tanta solidão? A complexidade latente e intimamente ligada a mim é boa ou ruim? Olhar para dentro, para toda esta complicação interna de emoções é prejudicial ou me faz crescer? Mas crescer para onde? Para quê? É possível controlar a raiva e o amor presentes lado a lado nesse amontoado de indecisões?

A caneta falha. Não há mais tinta. Foi o fim. Morreu.

A batida de uma música me faz viajar pelo mundo que me invade substancialmente e sem pedir licença. Vai empurrando tudo e gritando palavras desencontradas e cheias de beleza sonora. Deitado na cama, ele fica ali, ora ao lado, ora possuindo o corpo jovem e cansado depois de dias ininterruptos. Dias mesmo, pois não houve noite. O brilho solar não descansou por sete dias, incansável e vigoroso.

O enxame de idéias foi sacudido e o autor foi advertido de que elas eram muito perigosas e deveriam ficar dormindo por muito tempo, ou para sempre. Mas ele não se contentou e continuou a cutucar com vara curta todo aquele objeto cheio de imaginações. Não se arrependeu: era fascinante vê-las se formando, desde o princípio até o final. Todo o processo foi registrado pelo outro enxame que havia nele.

Pegou o telefone e saiu a contar para os amigos mais próximos a sua grande descoberta.

“Posso mudar o mundo com apenas um abrir e fechar de olhos. O poder da minha mente vai me transformar e levar aos recantos mais esquecidos das vilas tudo quanto há de belo, necessário e eterno”.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Modelos de camisa

Uma camisa com estampa de oncinha perambulava por aquele vale repleto de diferenças e desigualdades. Achei engraçado, porque era diferente. Ou achei diferente porque era engraçado? É preciso muita coragem para não se importar com a opinião alheia, mas mesmo aqueles que só vivem de acordo com o que pensa sofre influências externas das forças sociais e culturais.

O encontro inesperado ocorre bem no momento em que o céu parece habitar os pensamentos e o sol estala nos galhos das árvores lá fora. A corrida de corpos continua ininterrupta lá embaixo. Aqui, o ambiente esfria e é possível ouvir seu coração gelado batendo calmamente, sem emoção, sem vida.

O assobio precisa ser praticado todos os dias. Acredite! Se você não o fizer esquecerá rapidamente como se produz um som tão bonito soprando por entre os lábios. Me surpreendi outro dia quando o som produzido não era tão claro como na época de criança. Será o envelhecimento chegando ou se trata apenas do endurecimento das existências encampadas pelo vulcão de afazeres diários?

O verde afugenta o vermelho e promete consolo ao amarelo, que se camuflou no marrom desbotado da bota de astronauta que caminhava pela rua. O preto ainda se mantinha na pose de rei e senhor de tudo o que havia e era.

O verde come o vermelho e o vermelho se agiganta nos olhos cansados e baqueados pela poeira poluente e doente da grande cidade.